A ciência tem um problema: não sabe falar com o poder
A ciência, nos dias de hoje, enfrenta uma das suas maiores encruzilhadas, um problema que não se resolve nos laboratórios. Durante décadas, assumimos que o maior desafio da investigação residia na descoberta e na validação metodológica. Hoje, o ónus da questão está na aplicabilidade. Produzimos conhecimento com um grau de sofisticação como nunca se viu, porém falhamos frequentemente no momento de o fazer sentar à mesa, onde as decisões são tomadas e os orçamentos aprovados.
O esforço recente para democratizar a comunicação científica e torná-la acessível ao público geral tem um mérito inegável, mas peca por um desvio de foco estratégico. Assumiu-se, com demasiada ingenuidade, que, se a sociedade compreendesse a ciência, o poder político a acompanharia por arrasto. Esperamos que quem governa leia um artigo denso e, movido por um abstrato sentido de dever, faça o trabalho solitário de o converter numa política pública. Isso é ignorar a mecânica da administração.
Um decisor trabalha com orçamentos finitos, análises de risco, viabilidade económica, prazos apertados e prioridades concorrentes. Pensemos num exemplo simples e palpável: a preservação das abelhas. Se a comunidade científica explicar a um governante que a proteção destes polinizadores é crucial para a biodiversidade e para o equilíbrio dos ecossistemas, ele vai concordar com a premissa, mas o dossiê poderá ficar na gaveta. O rigor biológico, por si só, não gera ação. O cenário só muda quando fazemos a ponte para as consequências da decisão. Quando traduzimos esse conhecimento e demonstramos que o declínio das abelhas representa perdas significativas para a produção agrícola, impactos económicos ao longo da cadeia alimentar e custos que acabarão, de uma forma ou de outra, por ser suportados pela sociedade. Para que a evidência dê frutos, é imperativo convertê-la em impacto mensurável: em ganhos financeiros quando estes existem, na mitigação de prejuízos futuros, em poupança direta, mas também em benefícios ambientais, sociais e de saúde pública. A ciência tem de aprender a demonstrar que não produzir estes dados não é apenas um lapso académico e científico. É, muitas vezes, uma fatura económica e social que acabaremos por pagar.
Se a ciência não quer que o conhecimento que produz resida apenas na Academia e quer que seja implementado no dia a dia, tem de fazer com que a decisão política seja tomada com base nesse conhecimento. O dever de adaptar a mensagem a quem decide é, em primeiro lugar, de quem produz o conhecimento. A ciência tem de perder o pudor e saber como se “vender”, sem nunca vender a sua integridade. Mas a responsabilidade não termina aí: também as instituições públicas têm de criar mecanismos para receber, avaliar e utilizar esse conhecimento. É exatamente aqui que reside uma das grandes falhas do sistema atual: a escassez crónica de profissionais capazes de fazer esta ponte.
Faltam-nos “tradutores”, quadros que compreendam profundamente a integridade metodológica das ciências exatas ou naturais, mas que consigam aplicar-lhes a frieza pragmática da gestão e da economia.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.