Não havia glaciar, esponja, alterações climáticas: as origens da tragédia no Nepal
A origem não foi um sismo. Também não foi rompimento de lago glaciar. Terrenos ensopados em água são compactados como esponja.
É uma das maiores catástrofes naturais de sempre no Nepal, resumiu Prayash Adhikari, na Al Jazeera .
O activista climático falava directamente de Katmandu, capital do Nepal, poucas horas depois da tragédia desta quinta-feira, que terá matado centenas de pessoas. A contagem ainda está numa fase muito precoce.
Uma avalanche repentina na fronteira com o tibete, um invulgar deslizamento de terras, uma onda de lama a destruir tudo o que estava no caminho: casas, pontes, estradas, aldeias.
A origem não foi um sismo . Chegou a especular-se sobre essa possibilidade, mas o facto foi ao contrário: o deslizamento de terras foi tão grande que originou um abalo entre uma escala de 4,8 e 5,2 na escala de Richter. O sismo foi a consequência, não a causa.
João Duarte Fonseca, sismólogo, começa por lembrar que esta região tem uma das montanhas mais altas dos Himalaias, com mais de 7 mil metros de altitude. Uma parte substancial do flanco da montanha colapsou para o vale.
Também nega outra origem muito especulada: rompimento de lago glaciar. Não há lago glaciar naquela zona, assegura na RTP .
As primeiras imagens sugeriam um rompimento de barragem, mas só passaram 8 minutos entre o deslizamento de terras e o momento em que as aldeias são atingidas: não há hipótese de ter sido uma albufeira a ficar inundada, que colapsou depois e originou esta tragédia.
Ou seja, esta água fazia parte do próprio deslizamento de terras: “Estes terrenos, ensopados em água (espécie de lama), ao impactar o fundo do vale, são compactados como uma esponja e libertam toda aquela água”.
As alterações climáticas também estão muito relacionadas com esta catástrofe no Napal, explicou o especialista.
“Estes terrenos, sobretudo terrenos em altitude, estão completamente ensopados em água por causa, por um lado, das precipitações muito intensas (normais nesta fase do ano), mas por outro lado, por causa da fusão do gelo e da neve que está a ocorrer a uma taxa duas vezes superior à média do planeta”.
O aquecimento da atmosfera é duas vezes maior nesta região do que a média do resto da Terra.
João Duarte Fonseca explica a sequência: “O aquecimento global causa fusão de gelo e neve; gelo e neve são muito eficazes a reflectir a energia solar de volta para o Espaço; com a diminuição da área coberta por gelo e neve, há maior absorção de energia solar nos solos mais escuros – e aí há o aquecimento, que leva a que a situação em altitude se torne bastante crítica, em termos de quantidade de água acumulada nestes solos”.
Dave Petley, referência mundial no estudo e gestão de deslizamentos de terra, reforçou no EOS que não há evidências de que tenha sido uma inundação provocada pelo rompimento de um lago glaciar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em zap.aeiou.pt — o conteúdo pertence a ZAP.