Ser periférico é mais do que estar longe
Durante décadas, olhámos para a perificidade dos territórios como uma questão de quilómetros.
O centro produzia, irradiava, puxava.
A periferia esperava que os efeitos chegassem, um dia, por difusão.
Esta leitura, herdeira da tradição da economia neoclássica era confortável.
Definia os territórios pelo que lhes faltava relativamente ao centro e assumia trajetórias de desenvolvimento determinísticas a partir das dotações iniciais dos fatores produtivos.
Estigmatizou lugares, imobilizou expectativas e, sobretudo, falhou.
As desigualdades territoriais persistiram apesar de décadas de intervenção, o declínio demográfico intensificou-se, as políticas públicas não eliminaram divergências e a distância política e económica entre regiões continuou a alargar-se.
Portugal é um retrato particularmente nítido neste impasse.
Enquanto vastas áreas do interior envelhecem e se despovoam, o litoral e as duas áreas metropolitanas concentram população, capital e decisão até ao ponto do congestionamento.
Lisboa, Porto, o Algarve e várias cidades turísticas vivem hoje uma pressão demográfica e imobiliária que expulsa residentes, esgota serviços públicos e transforma o espaço público em postal.
O turismo, celebrado como motor da economia, tem escondido problemas estruturais sérios: precariedade laboral, aumento dos preços, conflitos na utilização do espaço e pressão crescente sobre o ambiente.
Uma monocultura que, ao concentrar riscos, fragiliza a resiliência dos próprios territórios que consideramos prósperos.
É a mesma moeda, com duas faces periféricas: a do abandono e a da saturação.
Hugo Pinto, Professor de Economia Regional e Urbana, Faculdade de Economia da Universidade do Algarve & Investigador do CinTurs – Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar Precisamos, por isso, de compreender o que é ser periférico de outra forma.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.