Um deslizamento de terras raro que fez desaparecer dois portugueses: tudo o que se sabe sobre a catástrofe no Nepal
O norte do Nepal foi atingido esta quarta-feira por uma enorme enxurrada de água, lama e detritos que destruiu casas, estradas, pontes e deixou um rasto de mortos e desaparecidos. A catástrofe atingiu sobretudo o distrito de Rasuwa, junto à fronteira com o Tibete, na China, uma zona montanhosa atravessada por rios e particularmente exposta a deslizamentos de terras e inundações repentinas.
Enquanto as equipas de emergência tentavam chegar às zonas afetadas, uma das primeiras explicações para a catástrofe começou a ganhar força: teria ocorrido um sismo e esse abalo teria provocado um grande deslizamento de terras, que por sua vez teria bloqueado o curso de um rio e desencadeado a inundação. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) tinha, de facto, registado um evento de magnitude 4,4 pouco antes da enxurrada.
No entanto, a análise posterior dos dados veio alterar essa sequência.
O USGS analisou novamente as ondas sísmicas registadas na região , com particular atenção às ondas de longo período, e concluiu que a energia detetada não tinha sido produzida por um sismo tectónico convencional. A agência atualizou o evento para magnitude 5,2 e passou a classificá-lo como um deslizamento de terras, situando a sua origem a cerca de 55 quilómetros a noroeste de Kodari, no Nepal.
A diferença pode parecer apenas técnica, mas é fundamental para perceber o que aconteceu. Um sismo ocorre quando há uma libertação súbita de energia no interior da Terra, normalmente associado ao movimento de uma falha geológica. Um deslizamento de grandes dimensões, por outro lado, acontece quando uma enorme quantidade de rocha, terra e outros materiais se desloca encosta abaixo. Esse movimento também liberta energia e pode gerar ondas que se propagam pelo solo e são detetadas por instrumentos sísmicos.
Foi isso que aconteceu esta quarta-feira, segundo a nova análise do USGS: os instrumentos registaram atividade sísmica, mas a origem dessa energia não foi um sismo tectónico; foi o próprio movimento da massa de terra.
Aliás, há até uma pequena alteração visual que traduz esta mudança. No mapa do USGS , os sismos são assinalados com círculos. Depois da atualização, o evento desta quarta-feira passou a ser representado por um losango, o símbolo utilizado para assinalar um deslizamento de terras.
Esta é agora a grande pergunta em aberto. A reclassificação feita pelo USGS permite perceber melhor o que foi o fenómeno que produziu o sinal sísmico, mas não responde necessariamente à questão sobre o que fez a encosta ceder em primeiro lugar.
Nas primeiras horas da catástrofe foram consideradas várias possibilidades. Uma delas apontava para um sismo como causa inicial, mas essa hipótese perdeu força depois da revisão do USGS. Outra possibilidade passa por uma alteração súbita relacionada com água ou gelo na região montanhosa, nomeadamente no lado tibetano da fronteira.
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