Sem território organizado não haverá indústria verde
Portugal está a preparar uma Estratégia Industrial Verde para 2040.
A iniciativa é oportuna, mas encerra um risco: reduzir a política industrial verde a um catálogo de tecnologias, incentivos, simplificações administrativas e projetos de descarbonização instalados à porta das fábricas.
A nova indústria não começa necessariamente na fábrica.
Em muitos setores, começa muito antes: na disponibilidade da matéria-prima, na organização dos fornecedores, na capacidade logística e na segurança de abastecimento.
É aqui que a floresta, a agricultura e os territórios rurais entram na política industrial.
Portugal continua a discutir os incêndios, o abandono rural, a dependência energética, a descarbonização e a perda de competitividade como se fossem problemas distintos.
Não são.
Estão ligados pelos recursos que o território produz, pela forma como os organiza e pela capacidade do país para os transformar em produtos de maior valor acrescentado.
Durante décadas, a floresta foi remetida para a política ambiental, a agricultura para a política agrícola, a energia para a política energética e o desenvolvimento do interior para os fundos de coesão.
Esta divisão administrativa pode facilitar a gestão dos programas públicos, mas não cria, por si só, cadeias de valor competitivas.
O resultado está à vista.
Portugal continua a exportar recursos naturais e matérias-primas com reduzida transformação, enquanto importa energia, tecnologia e produtos de maior valor acrescentado.
Ao mesmo tempo, continua a subaproveitar biomassa, resíduos agrícolas e subprodutos agroindustriais que poderiam ser utilizados na produção de energia, combustíveis, fertilizantes, materiais e produtos químicos de origem renovável.
O complexo agroflorestal já representa 5,1% do PIB português, gera 9,4 mil milhões de euros de valor acrescentado bruto, assegura cerca de 456 mil empregos e responde por 15,2 mil milhões de euros em exportações.
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