Extravagância Fígaro
Será que uma encenação extravagante é suficiente para capturar a essência de A Jornada Delirante de Beaumarchais? Esse é o desafio audacioso que esta produção assume.
A imagem é simples, mas encapsula perfeitamente a impressão deixada por estas Bodas de Fígaro : na noite de 14 de agosto, o claustro do Mosteiro da Cartuxa, em Caxias, é varrido por um vento violento que castiga vários elementos do cenário durante os dois primeiros atos, obrigando os cantores a agarrarem-se a um biombo ou a pegarem um manequim de costureira enquanto, acima deles, suspenso por um cabo, um abajur de papel gira ao sabor das rajadas como um pompom de carrossel.
Sim, é de facto um vento de loucura que sopra pela ópera de Mozart, ilustrando da maneira mais literal o subtítulo da comédia de Beaumarchais.
"Sim, é de facto um vento de loucura que sopra pela ópera de Mozart, ilustrando da maneira mais literal o subtítulo da comédia de Beaumarchais." E parece que essa também é a abordagem adotada pela encenadora Mónica Garnel e pela sua assistente Anna Leppänen para narrar as desventuras do famoso casal de criados e seus igualmente famosos patrões.
Longe de perucas empoadas, camisas com folhos e palácios do século XVIII, a iconografia utilizada neste casamento em Lisboa busca constantemente a incongruência burlesca, inspirando-se nos universos das histórias de quadradinhos, videoclipes e programas televisivos.
Telas adornadas com bosques de flores festivas giram para revelar flamingos cor-de-rosa chamativos e, assim como a iluminação de Sérgio Moreira, os figurinos de Marta Carreiras abraçam sem pudor a explosão de cores (com destaque para os figurinos que parecem papel de parede e os acessórios extravagantes: duas boias gigantes, uma piscina inflável, um espanador fluorescente...).
Essa alegre mistura funcionou maravilhosamente bem na notável produção de Cavalleria Rusticana/Pagliacci (Operafest 2024) da mesma encenadora; aqui, ela conduz a ópera de Mozart numa direção cómica, com traços de farsa, que, não obstante, parece demasiado unidimensional.
Pois, por mais extravagante que seja, o dia de Fígaro também reserva momentos de graça que a abordagem frenética de Garnel luta por integrar de forma harmoniosa, como se um demiurgo invisível estivesse apertando o botão “Pausar” do controlo remoto.
Gostaríamos de ter entendido a razão na declaração de intenções da encenadora que, infelizmente, é assaz intrincada.
"Ao imbuir o seu Fígaro com energia desenfreada, (...), André Henriques encontra 'nuances' ameaçadoras no seu 'Se vuol ballare...' para sugerir a raiva que o consome perante as maquinações do Conde.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.