REN - o liberalismo na gaveta
A decisão do Estado de adquirir 13,7% da REN é uma operação com um racional económico e operacional no mínimo discutível, assinalando o regresso do capitalismo de Estado pela mão de um Governo que, no passado, criticava com veemência a presença pública marginal nos CTT.
Em matéria de política económica, o PSD parece ter metido o liberalismo na gaveta.
A REN é, indiscutivelmente, uma empresa fundamental para a soberania nacional, a segurança energética e a coesão territorial.
Contudo, essa natureza estratégica aplica-se a dezenas de outras atividades críticas e não justifica, por si só, a tomada de participações acionistas.
A infraestrutura de transporte de eletricidade e gás já opera sob um quadro regulatório altamente rigoroso, escrutinado pela ERSE e pela tutela pública.
A defesa do interesse nacional e dos consumidores assegura-se através de uma regulação independente e exigente, não pela presença direta na Administração ou na Assembleia Geral.
Se a relevância estratégica justificasse a compra de ações, o Estado teria de entrar no capital de metade da economia.
Esta aquisição levanta também questões de governance societária.
As boas-práticas, inclusive à luz dos critérios ESG, exigem tratamento equitativo entre acionistas.
Como pode o Estado atuar com neutralidade quando acumula papéis de regulador e acionista? O argumento político de que esta compra de 325 milhões de euros contribuirá para “diminuir custos” na fatura das famílias carece de fundamento económico.
Há um conflito de interesses insanável: como acionista, o Estado beneficia da lucratividade e de dividendos elevados; como entidade pública, deveria pressionar por tarifas baixas.
Esta contradição desmente a tese da redução de custos.
O Estado deixa de atuar apenas como regulador e passa também a ter interesses enquanto acionista.
É preciso perceber como se conciliam essas duas funções, embora a resposta seja intuitiva.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.