Em Serralves: das pedras até ao céu, com Lee Ufan
Lee Ufan disfarça bem os 90 anos completados recentemente. Conseguimos imaginar um dia de trabalho normal na sua vida de artista viajante, nascido na Coreia do Sul, mas sem pouso único: da caminhada matinal de uma hora realizada logo ao acordar, esteja onde estiver; à capacidade de suster a respiração, durante dois minutos, enquanto trabalha numa tela. Esses e outros aspetos das suas rotinas pessoais e de trabalho surgem em conversa na Casa de Serralves, no Porto, enquanto decorrem os preparativos para a sua primeira exposição em Portugal, prestes a ser inaugurada naquele museu de arte contemporânea. Fragmentos do Infinito reúne um conjunto de esculturas e pinturas instaladas no interior da villa e ao ar livre, num diálogo com o que existe em volta.
Em nota oficial, sublinha-se a “abordagem inovadora do artista à relação entre paisagem natural e espaço arquitetónico”. E, de facto, a Casa de Serralves parece transformar-se ao acolher os quadros de Lee Ufan, peças de forte impacto, apesar da “economia do gesto” que comunicam, para usar a expressão de Philippe Vergne, curador da exposição. “Estou muito entusiasmado! Há muito tempo que queria trabalhar com ele”, revela o também ex-diretor do Museu. Uma das pinturas apresentadas foi mesmo concebida especificamente para aquele local, naquele local, ou melhor, numa “sala dentro de uma sala”, de aspeto minimalista, criada para o efeito. Serralves apelida-as de “pinturas meditativas”.
Ufan explica, por intermédio de uma tradutora, que não pratica propriamente meditação, ou talvez o faça à sua maneira. Nas pausas de trabalho, gosta de beber uma caneca de chá, de sentir paz de espírito e, às vezes, de fitar a tela em branco. Mas põe a tónica na respiração: antes de fazer deslizar o pincel sobre a tela, respira fundo; mas, quando começa a pintar, sustém a respiração durante um minuto e meio ou dois minutos, proeza justificada com muitos anos de treino. “Esta é uma parte muito importante, porque há muita fisicalidade no centro da sua prática. E ele sente que, ao restringir a respiração, pode estar em sintonia com o universo ou com o cosmos”, traduzem-nos.
A experiência do visitante assume ainda outros contornos diante de obras que combinam pedra, luz e sombra, ou mesmo o som dos nossos passos sobre placas de xisto entre paredes, numa tentativa de dotar o espaço de algo primitivo, como acontece com a obra “Relatum — Dwelling” (2026). Entretanto, lá fora, joga-se com elementos visuais do edifício, mas também com a natureza, do chão relvado às árvores tendentes para o céu, esse que surge refletido numa das obras e se torna parte dela. Chama-se “Relatum — The Sky Road” e é uma espécie de passadeira espelhada que se estende pela relva, em diálogo com duas pedras, cada uma pesando mais de uma tonelada. Os visitantes são convidados a percorrer esse trajeto, como se caminhassem no céu, por isso, já se adivinha o seu potencial enquanto “íman do Instagram”, comenta Philippe Vergne. Mas é, sobretudo, um exemplo de como a obra de Lee Ufan conjuga elementos naturais e industriais, ou seja, o que já existe e o que a humanidade se encarrega de transformar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.