Marquês. Sócrates acusa juíza de "cambalhotas" nas escutas
José Sócrates falou apenas durante a tarde desta quarta-feira no julgamento da Operação Marquês, mas, em cerca de duas horas e meia de declarações , o ex-primeiro-ministro não poupou a acusação do Ministério Público (MP) ou a presidente do coletivo de juízes. Com um regresso ao passado para rebater as imputações que o podem levar a uma futura condenação, Sócrates denunciou também a seleção e a interpretação de escutas do processo, ao visar a juíza por “cambalhotas” na leitura de algumas dessas conversas dos autos.
A viagem no tempo chegou até aos seus antepassados, com a invocação das “fortunas consideráveis” que foram herdadas pela sua mãe , Maria Adelaide Monteiro, e que o fizeram negar qualquer invenção de uma história de vida pessoal. Dessas fortunas se fez uma ligação até um dos temas mais contestados nesta sessão no Juízo Central Criminal de Lisboa: a venda de casas da sua mãe ao empresário e amigo Carlos Santos Silva , que reputou como “ absolutamente legítima “.
Ainda na área imobiliária, o principal arguido da Operação Marquês — que revelou ter pedido uma auditoria à sua conta bancária da CGD — voltou a falar do apartamento de Paris para admitir uma “inclinação para a arrogância” e refutar a prática de quaisquer crimes. Recusou ainda que o tom algo imperativo que usava nas conversas com Santos Silva significasse que o apartamento da Avenue President Wilson lhe pertencia, como está subjacente à tese do MP, e negou que houvesse corrupção com a Lena por causa do contrato com a Venezuela assinado em 2010, durante a sua governação.
Este foi também o dia em que o antigo governante foi confrontado por Susana Seca com alguns dos factos da acusação/pronúncia que, aparentemente, fragilizam a sua argumentação, como a presença constante de Carlos Santos Silva na sua esfera e o tom como parecia ‘pôr e dispor’ nessa amizade. Dessa “ relação umbilical “, nas palavras da juíza, o ex-governante retratou uma relação “ fraternal ” que assentaria numa “ admiração ” do empresário pelo amigo que chegou a primeiro-ministro de Portugal. E essa admiração por si, garantiu Sócrates, é ainda hoje partilhada por “muita gente”.
“We’ll always have Paris” [Teremos sempre Paris], declarava Humphrey Bogart a Ingrid Bergman no final de Casablanca. E tal como no inesquecível filme de 1942 realizado por Michael Curtiz, também no julgamento da Operação Marquês teremos sempre o apartamento de Paris. José Sócrates já o tinha abordado nas duas sessões anteriores e voltou uma vez mais ao tema, desta feita para procurar desmistificar a tese da acusação de que seria, afinal, o real proprietário do imóvel e que o empresário Carlos Santos Silva seria apenas um alegado ‘testa de ferro’.
Em algumas escutas do processo neste ponto, o antigo primeiro-ministro parece dirigir-se em tom autoritário a Carlos Santos Silva, que, diligentemente, acaba por seguir o que lhe é dito.
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