Santo António nasceu numa família da nobreza portuguesa?
Há perguntas históricas que parecem ter uma resposta conhecida até ao momento em que decidimos olhar para elas com maior atenção. A origem social de Santo António é uma dessas questões. Habituámo-nos à imagem de Fernando de Bulhões como o santo próximo dos pobres, dos humildes e do povo de Lisboa, imagem que a tradição religiosa e a devoção popular consolidaram ao longo dos séculos. Mas uma coisa é a imagem que construímos do santo depois da sua morte, outra, bastante diferente, é tentar perceber quem era a família em que nasceu, onde vivia, que educação recebeu e que posição ocupava na Lisboa do final do século XII.
É precisamente neste ponto que uma leitura olisipográfica, como a de José Sarmento de Matos, se torna particularmente sugestiva. Sarmento de Matos habituou-nos a olhar para Lisboa não apenas através dos grandes acontecimentos ou dos grandes personagens, mas também através das casas, das ruas e dos lugares concretos onde a história aconteceu. O próprio historiador explicou que, perante um edifício, procura saber quem o construiu, quem o habitou, o que essas pessoas faziam e, sobretudo, «que tipo de gente morava ali». A casa deixa, assim, de ser simples cenário para passar a ser documento histórico.
Aplicado a Santo António, este método obriga-nos a fazer uma pergunta aparentemente simples, mas historicamente decisiva: que família vivia diante da Sé de Lisboa na época em que nasceu Fernando de Bulhões? A tradição situa a casa dos pais de Santo António junto da Sé de Lisboa, no espaço onde posteriormente seria construída a igreja que lhe foi dedicada. Não estamos, portanto, perante uma residência situada numa periferia indiferenciada da cidade medieval. Estamos no coração religioso e urbano de Lisboa, junto do principal templo da cidade, num espaço onde se concentravam instituições eclesiásticas, circulação de pessoas, actividade comercial e relações de poder.
A tradição antiga é ainda mais explícita. Um texto sobre a vida do santo conservado em documentação patrimonial de Vila Franca de Xira afirma que Martim de Bulhões e Teresa Taveira moravam «junto e defronte da porta principal da Sé da cidade» e identifica ambos como pessoas «de nobre sangue». O mesmo texto acrescenta que Fernando foi baptizado na Sé e que ali recebeu as primeiras letras, aprendeu latim e exerceu funções de acólito e menino do coro. É necessário, contudo, separar aquilo que a tradição posterior afirmou daquilo que as fontes mais antigas permitem sustentar.
E aqui surge um dos documentos fundamentais para esta investigação: a Legenda Assídua , primeira grande narrativa franciscana sobre a vida de Santo António. A fonte não se limita a dizer que os pais eram virtuosos. Ao descrever a família, afirma que, na zona ocidental de Lisboa, os pais do futuro santo possuíam uma «residência digna do seu estatuto e condição social». Outras fontes medievais são ainda mais directas. O Dialogus de gestis beati Antonii apresenta Fernando Martins como «oriundo duma mui nobre família dessa cidade», enquanto a Benignitas fala de uma «linhagem nobre» e a Raimundina volta a referir a sua origem numa «família nobre».
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