Os amigos de Mark Zuckerberg
A notícia surgiu na quarta-feira e, de uma maneira ou de outra, não houve órgão de informação que não lhe prestasse a devida atenção.
Por vezes, é certo, à notícia não foi reconhecida a suficiente gravidade para se sobrepor ao debate sobre a dramática diferença ontológica entre uma “piscina” e um “poço”... mas, como diria o grande Billy Wilder, “ninguém é perfeito”.
Enfim, a favor da sua evidência, a notícia continha um elemento sintomático da bem chamada linguagem fria dos números: 17,1 mil milhões de dólares (contas redondas: 14,7 mil milhões de euros).
De onde vem esse dinheiro? E para onde vai? Pois bem, virá dos cofres da Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, e decorre do facto de tais produtos da empresa de Mark Zuckerberg terem violado as leis que defendem a “privacidade das crianças” e também as que determinam a “proteção dos consumidores”.
A decisão resultou de um processo de julgamento requerido por 47 estados dos EUA.
Nas palavras de um artigo do New York Times , assinado por Cecilia Kang e Eli Tan, o acordo agora estabelecido “pode representar um ponto de infleção para a indústria das redes sociais que tem frequentemente escapado ao escrutínio regulatório”, em particular em tudo o que envolve o efeito dos seus produtos no comportamento das crianças.
"A empresa Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, foi multada em 17,1 mil milhões de dólares.
Porquê? E para quê?” Entenda-se: qualquer construtor de piscinas a que damos o nome de poços, ou poços que parecem piscinas, pode, em nome do sistema legal de uma sociedade, ser acusado e julgado, eventualmente provando-se alguma forma de responsabilidade que não se adequa às regras desse sistema.
Não é isso que está em causa.
Do mesmo modo, o facto de alguém utilizar o Facebook (não é o meu caso) ou o Instagram (sim, é o meu caso) não significa que seja preciso dividir o mundo em que vivemos entre fenómenos “puros” e ameaças “impuras” – a não ser que passe a fazer sentido colocar em tribunal o proprietário de cada automóvel por estar a contribuir para a poluição do planeta...
Talvez que a minha ironia ofenda alguns leitores, e peço desculpa se for esse o caso.
Seja como for, serve-me para acrescentar que não encaro a condenação das práticas do império tecnológico criado por Zuckerberg como um fim em si mesmo - muito menos como o encerramento de um problema.
Mal ou bem, não me reconheço na ideologia voluntarista dos esforçados analistas do trânsito citadino que, depois de darem conta da “resolução” de um determinado acidente, rematam dizendo que tudo “voltou à normalidade” - sendo a “normalidade” o caos que todos os dias nos penaliza.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.