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Pelos infernos de uma odisseia do nosso tempo

Diário de Notícias ·

A versão de Cristopher Nolan de uma das mais antigas e extraordinárias narrativas da aventura humana, a Odisseia , tornou-se, este Verão, tema de discussão, de crítica, de interesse.

E ainda bem.

Sempre é melhor discutir a Odisseia, de Ulisses, do que a odisseia do atrelado de Luís Neves ou do tiro do comerciante de louro cuja etnia estamos impedidos de enunciar, sob pena de incorrermos em “crime de ódio”.

A Odisseia, de Nolan, sempre eleva um pouco mais a discussão e talvez leve alguns, por poucos que sejam, a ler o livro de Homero, ou, pelo menos, a voltar à versão cinematográfica da Odisseia de Mario Camerini e Mario Bava, de 1954, com Kirk Douglas (Ulisses), Silvana Mangano (Penélope) e Rossana Podestà (Nausicaa).

Medi a polémica desencadeada pela superprodução de Christopher Nolan pelas diferenças de opinião no meu círculo de amigos e relações próximas: houve quem tivesse visto e gostado; houve quem tivesse visto e, apesar das lacunas e dos absurdos, tolerado; houve quem tivesse visto e não gostado; e houve até quem não tivesse visto e não tivesse gostado (quem nunca caiu na tentação de um presciente “não vi e não gostei” que atire a primeira pedra).

Fui ver: gostei do som e da fúria dos elementos e dos combates, do mar revolto, da luz do sol grego, das vistas da terra.

Quanto à escolha dos intérpretes, não achei que a opção por uma Helena de Troia não-caucasiana fosse um pecado capital, apenas uma cedência fácil ao tempo, contrariando expressamente a descrição homérica; já me custou mais a figuração de Circe, nos antípodas da “Circe das belas tranças” de Homero e, sobretudo, do quadro do vitoriano John Waterhouse, embora Samantha Morton faça um papelaço quando, com fúria anti-patriarcal, transforma os companheiros de Odisseus em porcos.

Também não gostei do Ciclope e da omissão do “Ninguém”, o nome que Ulisses astuciosamente assume com Polifemo.

E não há Nausicaa, nem Antinoo, da ilha dos Feácios, a quem o protagonista conta a história.

Mas, enfim, os clássicos são clássicos porque as gerações vindouras os vão lendo, relendo e reinterpretando.

Por isso, pela sua plasticidade, sobrevivem.

E as suas interpretações e re-intrepretações, boas ou más, acabam por nos dar o tempo e o modo de quem as faz.

Assim, a autocrítica pós-traumática a que Nolan submete o texto e o herói e o aggiornamento , branqueamento ou erosão a que submete os valores dos gregos e troianos de Homero, não só não são inocentes como são sintomáticos.

A virtude guerreira e cívica ( aretê ), a honra e o prestígio ( timê )ou a moderação, o pudor e o respeito ( aidos ) que temperam a húbris (o orgulho desmedido e o excesso) estão ausentes em parte incerta.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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