As incongruências de Marx
1 A razão de ser da vulgarização das teses marxistas tem sobretudo a ver com a manipulação, em que o próprio e os seus seguidores foram exímios, de um conjunto de emoções humanamente compreensíveis como a animosidade para com os mais ricos, a desigualdade social, a inveja, a auto-comiseração, entre tantas outras. Todas elas geram um difuso sentimento de injustiça que o marxismo aproveitou até ao fim. Foi isto e sempre isto que explicou a vitalidade do marxismo, que é apenas antropológica e política, não a natureza científica das suas teses sobre o valor, a exploração ou a crise do capitalismo.
Marx procurou sempre dar uma aparência científica à sua construção. Mas, deste ponto de vista, as suas teses pouco ou nada valem e são falsas. A sua força não está aí. Mas na verdade, ao contrário do que se verifica nas ciências exactas, nas ciências sociais uma construção cientificamente insustentável pode levar a entusiásticas e fervorosas adesões, sem que quem as segue disso se aperceba.
Rio-me à brava quando ouço alguns patuscos tugas dizer que o marxismo é, a par de outras, uma fonte «válida» e que fornece bons «instrumentos» para a compreensão das coisas sociais e tem «aspectos» muito «aproveitáveis». É evidente que não percebem o que é o marxismo. O marxismo é uma construção dogmática total dotada de grande consistência interna, como o direito civil das obrigações ou a trigonometria. Não se pode ser apenas parcialmente marxista e na outra parte qualquer coisa. Ou se é marxista ou se não é, e se se é, é-se totalmente e não ao gosto do freguês. O marxismo é inteiriço e não se vende às meias dúzias.
2 O artigo que segue é um tanto extenso e elíptico, mas a complexidade da matéria justifica. Peço a paciência do leitor. O ponto de partida de Marx é a teoria do valor, que nele não foi original, mas que generalizou. O valor media-o pela quantidade de trabalho (socialmente necessário) incorporado em cada produto, como o de qualquer outra mercadoria. Numa sociedade caracterizada pela propriedade privada dos meios de produção, grande parte da população, para subsistir, só pode vender o seu trabalho ou melhor dizendo, a sua capacidade (de trabalho), assim reduzida a mercadoria. Ora, a capacidade de trabalho é a única mercadoria que gera um valor superior àquele pelo qual ela é adquirida no mercado pelo proprietário privado dos meios de produção e posta por contrato ao seu serviço. Daí a mais-valia da qual o proprietário se apropria, explorando o trabalhador. A mais valia é a materialização do tempo de trabalho não pago.
Este entendimento das coisas está errado? Não em si, mas passa completamente ao lado da realidade. O valor não depende apenas da quantidade de trabalho que está cristalizado nos produtos. Depende de muitos outros factores a que Marx não deu importância alguma, nem podia dar sob pena de o núcleo da sua tese claudicar e tudo cair como um castelo de cartas.
Marx não pôde evitar reconhecer que o trabalho era e é cada vez mais produtivo.
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