O Governo de ninguém
Pedro Passos Coelho admitiu, já em março deste ano, voltar à vida partidária “quando quiser” e defendeu que o PSD devia ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal.
Luís Montenegro respondeu propondo eleições diretas e desafiando quem tivesse outro caminho a apresentar-se.
O episódio pareceu encerrado.
Não está.
Foi apenas o primeiro ato de uma peça cujo desfecho começa a desenhar-se com uma nitidez inquietante.
As sondagens dos últimos meses colocam a AD atrás do PS e, nalguns casos, atrás do Chega.
A estratégia de Montenegro, que consistiu em governar ao centro recusando qualquer entendimento de fundo à sua direita, tem um limite evidente: o eleitor que procura mudança encontra-a noutro lado e o que procura estabilidade não lhe reconhece mérito suficiente para a premiar.
Quando o PSD perder as próximas eleições, a direita terá uma solução pronta a usar.
Chega, PSD e IL, provavelmente sob a liderança de Passos Coelho, a única figura capaz de transformar o velho “não é não” num simples interregno.
O PS não sairá incólume deste processo.
Continuará a beneficiar mais do desgaste alheio do que de mérito próprio, sem conseguir recuperar o eleitorado que perdeu nos jovens, nas periferias urbanas e no interior.
Ganhar eleições com pouco mais de um quarto dos votos não é vencer, é apenas perder por menos.
E quem perde por menos raramente tem força para impor condições a quem perdeu por mais, sobretudo quando precisa dele para governar.
Do outro lado restará, assim, um bloco central.
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