Armazenar para integrar: o próximo passo do sistema elétrico
A apresentação da Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia constitui um sinal muito positivo para o setor energético português. Pela primeira vez, o armazenamento é enquadrado através de uma visão nacional, com metas de médio e longo prazo e com o reconhecimento do seu papel na segurança do abastecimento, na estabilidade do sistema elétrico e na integração de uma quantidade crescente de produção renovável.
A Estratégia parte de uma realidade: aumentar a capacidade instalada de produção renovável não é suficiente. É necessário criar condições para integrar essa produção de energia de forma mais eficaz. O armazenamento permite auxiliar a gestão do sistema, deslocar energia ao longo do tempo, reduzir desperdícios de produção renovável, responder rapidamente a desequilíbrios entre produção e consumo e diminuir a dependência de tecnologias fósseis nos períodos de maior procura.
As metas apresentadas — 6,9 GW em 2030 e 9,76 GW em 2040 — traduzem uma ambição significativa. É igualmente positiva a adoção dos princípios da neutralidade tecnológica, da participação não discriminatória nos mercados e da possibilidade de combinar diferentes fontes de receita. O documento reconhece, assim, que o armazenamento pode assumir várias configurações e prestar diferentes serviços, não devendo ficar limitado a uma única tecnologia ou utilização.
Outro aspeto relevante é a articulação entre armazenamento, mercados de energia, serviços de sistema, redes, investigação e desenvolvimento industrial. Esta abordagem integrada é essencial porque o valor de um sistema de armazenamento não reside apenas na energia que consegue acumular. Depende também da rapidez da sua resposta, da duração, da localização, da disponibilidade e da capacidade de prestar serviços distintos ao longo da sua vida útil.
A consulta pública oferece agora a oportunidade de aprofundar alguns destes elementos. O primeiro passa por complementar as metas expressas em GW com objetivos em GWh e com informação sobre a duração dos sistemas. A potência indica quanto um ativo consegue fornecer num determinado momento; a capacidade energética indica durante quanto tempo o consegue fazer.
Importa também separar, nas metas e na monitorização, o armazenamento de grande escala dos recursos distribuídos instalados em empresas, edifícios, instalações de autoconsumo, comunidades de energia ou veículos elétricos. Estes ativos apresentam dimensões diferentes, mas podem ter um contributo relevante quando coordenados através de agregadores ou “Virtual Power Plants”. É precisamente nesta capacidade de coordenação que reside um dos principais desenvolvimentos tecnológicos a considerar. O armazenamento não deve ser analisado apenas como equipamento físico. O seu desempenho depende cada vez mais de sistemas digitais capazes de combinar previsões de produção e consumo, preços de mercado, necessidades da rede, estado de carga e degradação dos ativos. A otimização destes fatores permite decidir quando carregar, quando descarregar e que serviço prestar em cada momento.
A Estratégia beneficiaria, por isso, de uma maior valorização desta camada digital e das condições necessárias à agregação.
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