O combate entre a Hidra de Lerna e o Feiticeiro de Oz
H ouve um tempo em que as doenças eram um problema de cada um. Os doentes sofriam as suas dores, curavam-se ou não e, exceptuando o caso das doenças contagiosas, o transtorno ficava por ali – eventualmente enterrado, mas quase sempre circunscrito. As pestes mais devastadoras, mesmo elas, foram tratadas como se fossem apenas uma soma brutal de muitos casos individuais. E também as epidemias se esgotavam e pareciam desaparecer para sempre. Há muito que não é assim. Hoje, as doenças e a saúde são questões com repercussão política. Não apenas de política assistencial – mais hospitais, mais macas, mais médicos… – mas impondo previsão, planeamento e opções.
As últimas décadas expuseram um fenómeno novo. A Medicina não se limita a tratar doentes, conserva-os, volta a tratá-los, mantém neles a própria doença, desafia a morte com obstinação mesmo que o doente não queira – são as estatísticas que medem o tempo de sobrevida sem avaliar a sua qualidade. As pessoas, cada vez em maior número, são devolvidas à sociedade sem condições para uma vida plena. Acumulam-se no fim dos seus anos doentes sem cura, muitas vezes profundamente dependentes, em muitos casos alheios de si próprios e apenas parcialmente vivos. Todos merecem respeito da sociedade e das autoridades. O que é fácil e sempre referido na mensagem de Natal do senhor presidente. Mas necessitam igualmente de decisões cruciais sobre as condições em que estão a viver, os doentes e as suas famílias. E essas, pela primeira vez, não são decisões exclusivamente médicas. São decisões que envolvem as sociedades, que se relacionam com o modo como pretendem viver e que custos estão decididas a pagar.
A s doenças e as causas de morte são iguais desde o princípio do mundo, apenas a prevalência de umas e outras tem mudado ao longo dos séculos. Terá havido um tempo em que a doença seria rara ou não reconhecida, tempos em que a morte era demasiado precoce e sobrevinha nas condições de grande exposição a todo o género de acidentes e violências. Há 20 mil anos seria mais fácil morrer com a cabeça fracturada pela tíbia de um bisonte, ou esventrado pelo próprio bisonte, do que por insuficiência cardíaca. E se alguém vivesse o suficiente para morrer deitado e com falta de ar, sofrendo de um coração cansado e sem feridas visíveis, a causa da sua morte não seria reconhecida como tal.
Há muito que não se sabe de mortes por bisontes e, ao contrário, as calmas doenças que conduzem à morte foram sendo identificadas em número cada vez maior. As doenças são maneiras modernas de morrer, concorrem vantajosamente com outras causas de morte criadas pela modernidade. Durante milénios as doenças não foram necessárias, na realidade não teriam oportunidade de se manifestarem. As doenças cardio-vasculares não existiam nos verdes prados da Europa com fome, também se acredita que nenhum soldado romano tenha apanhado SIDA nos viciosos acampamentos. Existiam febres antes de serem conhecidos os termómetros mas ninguém imaginava que fossem provocadas por bichos invisíveis.
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