Zaida Sanches nomeada para prémio sueco defende oficialização da língua cabo-verdiana
A escritora de literatura infanto-juvenil Zaida Sanches defendeu hoje à Lusa que Cabo Verde deve oficializar a língua cabo-verdiana e criar estruturas para a valorizar a par do português, depois de ter visto uma experiência bem-sucedida em Portugal.
"Eu vi que nós podemos [fazê-lo], a questão é ter coragem de oficializar" a língua cabo-verdiana, designada como crioulo, e "criar estruturas para fazer as duas línguas andarem normalmente", referiu, em entrevista a propósito da nomeação para o prémio literário sueco Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) 2027.
Numa das apresentações dos seus contos em Portugal, em 2010, no distrito de Setúbal, disse ter tido "a sorte" de conhecer "uma turma bilingue de português e crioulo", um "projeto-piloto".
Em vez de apresentar o seu trabalho, os alunos disseram-lhe: "hoje vai ouvir o que preparámos para si".
"Recriaram as obras, mas o que me tocou foi (...) a forma como eles liam e escreviam em crioulo e, ao mesmo tempo, em português", demonstrando que "há espaço para aprender várias línguas em simultâneo".
"Sempre fui aberta sobre esta questão, mas, se dúvidas tivesse, ali acabaram-se", disse, acrescentando: "cientificamente já está provado que dos 2 aos 7 anos nós podemos fazer pequenos génios".
"Se eu tenho um problema de informática, de saúde, eu vou ter com um informático ou vou a um médico. Mas quando é uma questão linguística, todos são doutores e formados na área e dão opinião, esse é que é o grande problema: não se deixa os linguistas darem parecer e fundamentar", referiu.
Segundo referiu, outros países mostram como o reconhecimento da língua materna quebra barreiras.
"Se um holandês cometer um erro a falar inglês ou francês, não é nada. Porque tem uma língua oficial no seu país. Mas está a ver o `bullying` ao cabo-verdiano de cada vez que comete um erro quando fala português? Se as duas línguas forem valorizadas, oficiais, as pessoas não criam tantos traumas" por introduzir crioulo no meio de uma conversa, exemplificou.
A autora não rejeita a possibilidade de publicar contos em língua cabo-verdiana.
"Provavelmente, talvez quando fizer outras edições", até porque já há interesse na tradução para inglês e francês, indicou.
Zaida Sanches foi nomeada na quarta-feira para o prémio literário sueco Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) 2027, uma das maiores distinções internacionais na área da literatura infanto-juvenil.
Estão a concurso 263 nomeações de 74 países e o Conselho Sueco das Artes anunciará o premiado a 06 de abril de 2027.
A autora é quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde, destacada na Embaixada em Portugal, em Lisboa.
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