O país sentado na plateia
Há um ritual que se repete sempre que a Assembleia da República recebe um debate com maior atenção mediática.
Um deputado levanta-se, lê uma intervenção preparada para o confronto, espera pela reação da bancada adversária e oferece às câmaras a frase que o partido publicará nas redes sociais poucos minutos depois.
O vídeo é cortado, legendado, acompanhado por música ou por uma descrição indignada e distribuído como prova de que alguém “desmontou”, “humilhou” ou “arrasou” o adversário.
No Parlamento discutia-se, talvez, uma reforma laboral, o futuro das pensões ou a execução do Orçamento do Estado.
Nas redes sociais fica apenas o episódio.
A política portuguesa está progressivamente a transformar-se num reality show , não apenas porque tem protagonistas, rivalidades e expulsões, mas porque passou a ser organizada para entreter uma audiência que julga estar a participar na decisão, quando, na verdade, está sobretudo a assistir à representação do conflito.
Um Parlamento fragmentado devia obrigar os partidos a argumentarem melhor.
Um governo com 91 deputados não aprova sozinho as suas reformas e uma oposição onde o Chega dispõe de 60 lugares deveria transformar cada votação numa verdadeira disputa por maiorias políticas.
Aconteceu quase o contrário.
A necessidade de negociar aumentou, mas a visibilidade da negociação diminuiu.
O trabalho parlamentar importante continua a acontecer nas comissões, nas reuniões entre grupos parlamentares e nos contactos entre direções partidárias, enquanto o plenário se torna o palco onde cada partido representa para o seu eleitorado a versão mais conveniente do que aconteceu.
Já não é indispensável ganhar o argumento.
É necessário ganhar o episódio.
Uma explicação de dez minutos sobre a sustentabilidade da Segurança Social dificilmente será tão apelativa como uma acusação de dez segundos sobre quem quer roubar as pensões aos portugueses.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.