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Ter uma biblioteca é ridículo

Observador ·
Ter uma biblioteca é ridículo

Adoptei nos últimos dois anos um hábito tão nobre quanto ridículo: ler um livro por semana. Quando a pessoa impõe a si mesma propósitos como este trata-se sempre de uma questão espiritual. Sim, eu sei que a salvação da minha alma não depende da leitura mas há alguma intranquilidade aqui, é óbvio. Estou a tentar provar o quê a quem por fazer questão de ler um livro por semana? Ainda não sei mas para já faço questão de prosseguir na decisão tomada.

A minha relação com a leitura tem dias solares e outros. Por um lado, raramente o prazer de ler um livro ultrapassa em mim o prazer de terminar de ler um livro. Por outro e por muito que não queira, suspeito sempre de quem lê muito ou de quem até lê demais. Admito por exemplo que acho saloio pessoas que têm bibliotecas. A presunção de ter uma biblioteca só se perdoa com a certeza de que quem a tem não percebeu nada do que lá está.

Não tenho uma biblioteca. Deus me livre. Tenho umas estantes com livros. Até faço por organizá-los por ordem alfabética mas sem divisão temática (a poesia é uma excepção). Mas só de escrever estas linhas dói. Que parvoíce. Ui, o cidadão que vive melhor pelos livros que possui. É um absurdo porque cada frase bem escrita e verdadeira que lemos é um dedo divino apontado contra nós. A pessoa com uma biblioteca já vive em múltiplos juízos finais antes de o derradeiro chegar. Força.

Mas cá vou eu, atravessando 2026 com esta meta de ler um livro por semana. Talvez para aumentar as brasas sobre a minha cabeça, estou a cumpri-la. Ando agora de volta de dois calhamaços: uma releitura de “A Carta aos Romanos” do Karl Barth (o maior teólogo do Século XX) e “Aztecs” de Inga Clendinnen (Mel Gibson não exagerou um milímetro no “Apocalypto”). Livros fantásticos mas muito exigentes. Precisava de respirar algum ar puro.

Sábado de manhã e pego nos “Dias e dias” da Adília Lopes. Lê-se em meia-hora, que é óptimo para manter a média semanal. Mas, sobretudo, leio para não ler. Vou tentar explicar. Já li a Adília toda e ela tornou-se canónica para mim. Por que gosto tanto da Adília? Entre tantas coisas, porque ela ao escrever assume que este culto da escrita é também ridículo. A Adília é canónica, que é outra maneira de dizer bíblica, porque, como a Bíblia, ensina que cultuar Deus é fundamental mas mal feito é fatal.

Os meus escritores mais queridos são sempre também anti-escritores. Da mesma maneira que na Bíblia os adoradores mais verdadeiros sabem também partir as harpas em que tocam. Quando estou a ler a Adília deparo-me, por exemplo, com estas palavras: “comecei a ouvir a Musa quando ia fazer 23 anos. (…) Eu sei que falar assim parece banha da cobra. Mas não é. (…) Ouvir a Musa não é só ter prazer em escrever, ter vontade de escrever, ter ideias ou imagens. Como eu tinha aos 11 anos. É aparecer o texto na cabeça vindo não sei de onde. (…) Não são os textos que me interessam, quero lá saber da Musa. Quero é a gata, o afecto, a vida, a gata. Ouvir a Musa é desgastante, um frenesi. Volto a escrever como aos 11 anos, quando andava no segundo andar do autocarro da Carris. Tenho 60 anos adolescentes.”

E é isto.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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