Assim vai Moçambique
Há quase um ano, a propósito do Nobel da Paz atribuído a María Corina Machado, escrevi que a esperança que então atravessava o Atlântico chegava também a Moçambique. Volto ao tema porque a esperança não vingou, e porque em Portugal se continua a olhar para Moçambique como um problema de segunda categoria, adiável, sempre para depois.
O que há em Moçambique não é um acidente de percurso ou um embaraço menor. É um regime autoritário instalado, que se sustenta em corrupção e em tráficos vários, não apenas de influências, e que gere um país de gente trabalhadora e resiliente como se o povo fosse um obstáculo a contornar ou espezinhar. Mais de metade da população vive em pobreza extrema, num país com gás suficiente para fazer inveja a meia Europa. A riqueza existe. Mas os benefícios não chegam a quem devia recebê-los primeiro.
É nesse chão, e não noutro, que a violência germina. Carlos Cardoso, morto em 2000 a investigar uma fraude bancária. Gilles Cistac, professor de Direito Constitucional, morto a tiro em 2015 por defender uma tese jurídica incómoda. Jeremias Pondeca, quadro da RENAMO, executado a tiro em 2016, na marginal de Maputo, em plena luz do dia. Mahamudo Amurane, autarca de Nampula, assassinado a tiro à porta de casa em 2017. Anastácio Matavele, formador de observadores eleitorais, morto em 2019 pelas mesmas mãos que deviam garantir a lisura das eleições que ele ensinava a fiscalizar. Elvino Dias e Paulo Guambe, mortos a tiro em 2024, na noite em que a contestação eleitoral começava. E, há poucos dias, Ilídio Facitela Gustavo, mobilizador do partido ANAMOLA, raptado e encontrado morto em Inhambane, testemunha, precisamente, do julgamento que o Estado move contra Venâncio Mondlane. Nenhum destes crimes teve um culpado ou sequer um suspeito, neste longo quarto de século que separa as mortes de Cardoso e de Facitela Gustavo. O que não as separa é o padrão. A violência que cresce e o de uma justiça politizada ou parcial que não chega ou chega tarde de mais para significar alguma coisa.
A comunidade internacional sabe disto. Sabe e escolhe, com uma disciplina notável, olhar para o outro lado sempre que o interlocutor tem gás para vender ou outros recursos naturais. Moçambique não é ignorado por ignorância. É ignorado por conveniência, e a conveniência é sempre mais barata do que a coerência.
Gostava de poder dizer que esta causa atravessa o espectro político português. Infelizmente, não atravessa, e isso devia incomodar-nos mais do que incomoda. José Luís Carneiro esteve há dias em Maputo, reuniu-se com Daniel Chapo, e não encontrou tempo, nem lá nem antes em Lisboa, para falar com Venâncio Mondlane, branqueando os crimes do regime. Não é um esquecimento. É uma escolha, e as escolhas dizem sempre mais do que os comunicados.
Na Iniciativa Liberal vamos continuar a acompanhar isto, a falar sobre isto, a actuar sobre isto, a denunciar e a alertar, não porque acreditemos que Portugal sozinho tem solução para o que se passa em Maputo, mas porque é uma questão de ética democrática elementar e porque o silêncio nunca resolveu nada em lado nenhum.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.