Graça Morais: Num mundo à deriva, resta-nos a amizade, o amor e a arte
Se no princípio era o verbo, aqui foram os lápis de cor.
“Aqui” remete para uma vida que ainda não tinha traço firme, contundente.
“Aqui” remete para uma criança que descobria o mundo a partir da aldeia do Vieiro, em Trás-os-Montes.
Graça Morais, que desde cedo descobriu que quis ser pintora.
Que nunca abdicou da sua relação com a vastidão dessas paisagens, das montanhas que carregam os anseios, as dores e as alegrias de quem nelas faz vida.
Dos rostos que a marcaram desde sempre e aos quais retornou, uma e outra vez.
Muitas vezes.
E que nem a morte apagou.
Mas demos dois passos em frente, para dar um atrás.
Aos pedaços de telha que usava como lápis de cor.
À porta de casa, onde vivia com a mãe e os seus cinco irmãos, sempre aberta, em que “a rua entrava em casa e a casa entrava na rua”, diz ao JE com uma expressão serena.
À liberdade de movimentos.
À dureza da terra.
Às cerejas que desenhava “a uma chávena e um bule que havia lá em casa” e que lhe fizeram as delícias do traço.
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