Ex-autarca de Paris admite "falhanço" das instituições nos abusos sexuais
À frente da capital durante 12 anos, Hidalgo é visada, tal como o novo presidente socialista da Câmara, Emmanuel Grégoire, por investigações penais na sequência das queixas de várias famílias, nomeadamente por falta de assistência a pessoa em perigo.
Desde o início de 2026, 132 animadores foram suspensos pela Câmara, dos quais 52 por suspeitas de violência sexual ou sexista, número que traduz um caráter "sistémico", segundo Emmanuel Grégoire, que lançou em abril um plano de 20 milhões de euros contra a violência sexual no apoio extracurricular.
No âmbito penal, estão em curso mais de 200 investigações nas escolas primárias e creches da capital, visando funcionários desses estabelecimentos.
"Se estamos aqui perante vós hoje, é porque as nossas instituições, Câmara de Paris, autarquias locais, Educação Nacional, polícia, justiça [....] falharam na proteção dos nossos filhos", considerou Hidalgo na comissão de informação do Senado sobre o tratamento e a prevenção da violência escolar no apoio extracurricular em França.
Durante os seus dois mandatos, defendeu, esteve "sempre extremamente envolvida", implementando "processos para reagir e apertar permanentemente as malhas da rede, que continuam ainda muito abertas".
Evocando um "fracasso coletivo", a ex-autarca apelou às instituições para "cooperarem" e insistiu na necessidade de os presidentes de câmara "terem o Ministério Público ao seu lado", nomeadamente para comunicar melhor com as famílias e evitar um "sentimento de abandono".
Hidalgo reconheceu, no entanto, que no seio da Câmara "houve disfunções, cadeias de informação que não funcionaram".
Já em 2015, um relatório da Inspeção-Geral da Câmara que solicitara tinha dado o alerta e emitido 50 recomendações, metade das quais não foram implementadas.
Hidalgo voltou a manifestar "arrependimento" por não se ter reunido com as famílias das vítimas no momento em que o escândalo eclodiu, na primavera de 2025.
"Não há desculpas, não procuro nenhuma, deveria tê-lo feito", afirmou.
"Anne Hidalgo é incapaz de formular a mais pequena desculpa, continua na linha do seu negacionismo que exprime no Conselho de Paris há 10 anos", criticou na Europe 1 Inès de Raguenel, conselheira parisiense do partido Os Republicanos (direita) que preside a uma missão de informação e avaliação interpartidária perante a qual a antiga presidente da câmara deverá explicar-se a 09 de outubro.
"As denúncias foram recebidas e as investigações foram abertas", visando Emmanuel Grégoire e Anne Hidalgo declarou a procuradora Laure Beccuau à rádio France Inter, salientando que foram recebidas, até ao momento, três queixas contra a administração municipal ou autoridades autárquicas.
A mais recente ocorreu a 04 deste mês, quando cerca de 15 famílias, que denunciaram violência e abusos sexuais contra os filhos, anunciaram ter apresentado queixa contra a Câmara Municipal de Paris, Grégoire e Hidalgo.
Reunidas em torno do coletivo "MeTooEcole", estas famílias pedem à justiça que investigue o que estas autoridades sabiam sobre as falhas nas atividades extracurriculares.
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