Putin, os lorpas e o benefício da dúvida
A Rússia vem-se divertindo com ataques híbridos contra os países da Europa. Há anos que os executa, testa, aperfeiçoa, mede as nossas reacções e ri-se. Isto porque estas tem seguido um protocolo que consiste, grosso modo, em franzir o sobrolho, convocar uma reunião, fazer um comunicado, anunciar uma investigação, exigir provas incontroversas e, finalmente, assobiar para o ar.
É uma espécie de síndrome da mulher agredida aplicada à geopolítica. Aparece com mais uma nódoa negra, explica que caiu nas escadas e pede delicadamente ao agressor que não volte a fazê-lo.
Se um drone se desvia misteriosamente e aterra na Roménia, o primeiro suspeito deve ser o Kremlin.
Se há um ataque cibernético, um incêndio numa instalação militar, uma explosão numa fábrica de armamento, ou uns estarolas a debitarem o vademécum de Moscovo em horário nobre, a lupa deve assestar-se sobre a Rússia.
Eu sei que esta ideia horrorizará os juristas de café, os clérigos da inefabilidade do Direito Internacional e alguns dos nossos procuradores-gerais da geopolítica televisiva. A presunção de inocência, dirão. O Estado de direito. As provas. A prudência. E mais duas ou três expressões em latim, caso o tempo de antena o permita.
Sucede que o Kremlin não está a ser julgado no Tribunal da Relação de Lisboa. E a Rússia não é um cidadão apanhado pela GNR com um presunto debaixo do casaco.
A presunção de inocência é um conceitos que visa proteger indivíduos do poder arbitrário do Estado, não um pacto de suicídio estratégico destinado a impedir Estados de se defenderem de outros Estados.
Durante anos, o Kremlin percebeu que nós, no Ocidente, queremos certezas, e por isso trabalha precisamente para que nunca as tenhamos.
Um hacker sem uniforme. Um incendiário contratado por intermediários. Um navio comercial que, por azar, arrasta a âncora exactamente por cima de um cabo. Um drone que se perdeu. Uma explosão que pode ter sido um acidente. Uma campanha de desinformação que nasce “espontaneamente” afinada em todos os media, como os cogumelos depois da chuva.
A NATO e a própria UE reconhecem oficialmente que estas manobras russas estão a acontecer, não estou aqui a descrever uma fantasia produzida por perigosos militaristas agarrados a uma G3.
Investigação, especialistas, peritos, erviços de informações, conferências, declarações, apelos à prudêcia.
Quando chegamos a uma conclusão, Moscovo já vai dois incidentes à frente. E entretanto, em cada televisão portuguesa surgem logo os habituais corifeus de Moscovo, com a lengalenga ritual.
Primeiro, “não sabemos se foram os russos”; depois “não há provas”; a seguir, “a Rússia também tem preocupações legítimas de segurança” .
Finalmente, se aparecerem as provas, descobre-se que o verdadeiro problema foi Israel, ou a NATO ter provocado Putin ao investigar o assunto.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.