Inquietações num mundo em mudança (I)
O ritmo das mudanças que se verificam nas últimas duas décadas ultrapassa o que se podia imaginar.
Salientam-se 4 tipos das mudanças em curso: na cultura e nos valores civilizacionais; na politica; na geopolítica; na tecnologia
O Padre Manuel Antunes definia “cultura” como a maneira de ser, estar e permanecer no mundo.
A ideia central é que a cultura molda a visão que uma comunidade tem da realidade, orienta valores, comportamentos e instituições, cria continuidade histórica, identidade coletiva, sentido de pertença e permite ao homem habitar o mundo com sentido.
As culturas preservam memória, símbolos, língua, modos de vida e sentimentos de pertença. Criam uma identidade. Sustentam um propósito.
Já os valores civilizacionais procuram estabelecer um mínimo ético e comportamental partilhável entre sociedades/nações diferentes.
Perguntamo-nos muitas vezes quais são os valores europeus e ocidentais.
Hoje em dia também nos interrogamos sobre as causas da progressiva perda desses valores e do declínio da identidade europeia que vem ocorrendo.
O filão mais profundo da identidade europeia e da civilização ocidental é a herança judaico-cristã, a que se juntaram, com ela coexistindo por vezes com tensões, os legados iluminista e moderno.
Da tradição judaica, salientam-se a história como linear e com sentido, a lei moral transcendente, a dignidade do ser humano e o profetismo (este como ideia de que o poder pode e deve ser criticado à luz de uma norma superior).
Do cristianismo sobressaem a dignidade da pessoa humana como valor inviolável e a liberdade como valor inquestionável, concedida por Deus desde a criação, a consciência individual perante Deus, o conceito de direito natural, o sentido de dever para com o próximo, a obrigação dos mais fortes protegerem os mais fracos, a separação entre o temporal e o espiritual e o papel das instituições ao serviço das pessoas. Tudo com base nas suas virtudes centrais – o amor ao próximo, a paz, a verdade, a caridade, a humildade, a justiça, a misericórdia e o perdão.
A herança iluminista surge a partir do Sec XVII que tem como pilares a liberdade, os direitos naturais e os direitos humanos, a solidariedade, a separação de poderes, o Estado de Direito, a ciência como autoridade epistémica e o laicismo.
Estas grandes tradições, a que se juntam as aculturadas de origem oriental e a liberal moderna – têm um núcleo convergente desses valores, mas respondem de forma diferente em relação a outros.
A matriz europeia é, assim, um campo de tração produtiva entre Jerusalem, Atenas, Roma e as Luzes, debatendo-se a sua identidade entre o universalismo (todos os homens são iguais em dignidade) e o particularismo europeu.
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