A Baixa, que está tão perigosa, não o sendo
Há umas semanas, estando de visita a uma residência de idosos perto de Lisboa, em cujo centro vivo, e anunciando que ia apanhar o comboio para casa, uma das senhoras presentes comentou: “Cuidado, que Lisboa agora está tão perigosa.” Perguntei onde estava o perigo.
“Com aqueles estrangeiros todos”, respondeu a idosa, que nunca viveu na capital e há muito não a visita, só a “conhecendo” através de canais, publicações, políticos e comentadores tabloide que pintam o país como entreposto criminal.
Reprimindo um suspiro, disse à senhora que vivo na Baixa fez este mês de agosto exatos 30 anos, e que não noto — pelo contrário — qualquer agravamento do ponto de vista da segurança.
Que realmente, face ao que se passava há 30, 20, ou até 10 anos, há muito mais estrangeiros, às dezenas de milhares, enchendo dia e noite as ruas do centro da cidade, porém não notei que, para além de me causarem crises de nervos por encalharem nos passeios, impedindo a passagem, ocasionassem qualquer agravamento de criminalidade (à excepção daquela que tem como vítima o património e a estética, pela transformação de toda a zona numa nova Albufeira).
Claro que suponho saber a que “estrangeiros” se referia a boa senhora; não aos que vêm de visita mas aos que vêm trabalhar — sobre esses, porém, também não tenho absolutamente nada a dizer no que respeita a “perigo”.
Nem eu nem as estatísticas de crime da cidade, que estão disponíveis, na internet , a qualquer pessoa que queira consultá-las, permitindo até verificar as participações por zona, incluindo homicídios, ofensas à integridade física, furtos e roubos .
Vejamos: isolando as esquadras da PSP da Rua da Prata, em plena Baixa, e da Rua da Palma (junto ao Martim Moniz), notamos que desde 2010 (é o ano mais recuado disponível nesta pesquisa) se nota um aumento das participações dos crimes contra as pessoas, os quais tiveram o seu máximo em 2023 (1484).
Esse aumento deve-se sobretudo aos crimes contra a integridade física (foram 1132 em 2025, 78% do total dos crimes contra as pessoas registados nesse ano), nos quais avulta a violência doméstica (744, ou seja 66% do total, a esmagadora maioria contra cônjuge; em 2010, o crime de violência doméstica somava um total de 241 queixas), seguida da ofensa à integridade física voluntária simples (361 em 2025, sem grande alteração desde 2010, quando se registaram 371).
Também com um aumento assinalável, que acompanha o da participação deste crime no país todo (e as alterações efectuadas, a partir de 2015, à respectiva tipificação), a violação tem em 2025, com 30 registos, o seu máximo nas duas esquadras referidas, mais do triplo dos nove contabilizados em 2010.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.