O analfabetismo financeiro do século XXI
Portugal foi eleito pela ‘The Economist’ como a melhor economia do ano 2025 numa classificação que teve em conta fatores como a performance do mercado acionista.
No entanto, poucos meses depois, o Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, alertou na sua mais recente entrevista, que o país não vive um “milagre económico”.
Segundo o Boletim de Junho de 2026 do Banco de Portugal, o aumento no produto interno bruto (i.e.
PIB) tem sido fortemente ancorado pelo consumo interno, algo que não é sustentável a médio-prazo sem que ocorram aumentos de produtividade, para que haja de facto uma melhoria na qualidade de vida da população.
O diagnóstico é consistente com o Relatório Draghi sobre a Competitividade Europeia (2024), que identifica o fraco crescimento da produtividade como um dos principais desafios estruturais da Europa.
Mas o que tem tudo isto a ver com literacia financeira? Recorrentemente, associa-se o termo a produtos de poupança, investimento, ou orçamento familiar, mas a literacia financeira começa antes: no momento em que se compreende como uma economia cria rendimento e riqueza.
Uma sociedade que olha apenas para o PIB pode confundir crescimento económico com melhoria do nível de vida.
A recente revisão da população residente em Portugal pelo INE veio reforçar esta distinção: uma economia pode produzir mais em termos absolutos, mas se esse crescimento for acompanhado por uma população maior, o aumento médio por habitante pode ser bastante mais limitado ou até não se verificar.
Daí a importância de analisar indicadores relativos como o PIB per capita, sobretudo quando expresso em paridades do poder de compra.
É necessário entender também que, um país não aumenta de forma sustentável o seu nível de vida apenas através de aumentos nominais nos salários; esses aumentos precisam de ser acompanhados por ganhos de produtividade para não serem absorvidos pelo aumento do custo de vida.
Mas a produtividade não é o único conceito económico que uma sociedade precisa de compreender.
A inflação, muitas vezes descrita como um fenómeno abstrato, tem consequências concretas no poder de compra das famílias, e foi nesse sentido que Álvaro Santos Pereira referiu que “a inflação é um imposto” e que penaliza severamente os mais pobres.
E é aqui que surge uma das manifestações do analfabetismo financeiro do século XXI: a diferença entre a perceção de conhecimento e a capacidade efetiva de compreender conceitos económicos básicos.
O relatório global do Santander, de dezembro de 2025, concluiu que 63% dos inquiridos em Portugal afirmam “dominar” temas financeiros, mas apenas 36% respondem corretamente a uma pergunta básica sobre inflação.
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