"Linguista não é quem prescreve o uso elitista da língua"
Usamo-la a cada instante, quase sem pensar. Mas, afinal, o que é a linguagem? Será apenas um meio de comunicação? Porque é que um cão comunica sem possuir linguagem? Porque consegue uma criança aprender qualquer língua do mundo, enquanto nenhuma outra espécie o faz? E porque é que uma lesão no cérebro pode destruir uma capacidade que parece tão natural?
Estas são algumas das perguntas que atravessam A Natureza da Linguagem (Zigurate, 2026), o novo livro da linguista Alexandra Soares Rodrigues. Depois de mais de três décadas de investigação e ensino, a professora do Instituto Politécnico de Bragança propõe uma leitura da linguagem muito diferente daquela que domina o senso comum: não como um simples instrumento de comunicação nem como um conjunto de regras do “bom português”, mas como uma faculdade biológica inata, exclusiva da espécie humana e inscrita na própria arquitetura do cérebro.
Numa conversa por email com o Observador, a autora explica por que razão um linguista não é um “juiz do bem falar”, onde termina a comunicação animal e começa a sintaxe, o que as afasias revelam sobre a mente e porque considera que, apesar da fluência dos grandes modelos de linguagem, a Inteligência Artificial continua muito distante da linguagem humana. Pelo meio, partilha ainda a experiência pessoal de ter perdido a voz na sequência da Covid-19 e a forma como essa vivência reforçou a sua compreensão sobre a fragilidade e a dimensão profundamente material da faculdade de falar e pensar.
No início de A Natureza da Linguagem escreve que sentia falta de um livro, em português, que apresentasse uma visão contemporânea da linguagem. Trata-se, além disso, de uma obra gestada ao longo de vários anos. Como foi o processo de maturar um livro tão denso (que cruza linguística, neurociências, biologia, filosofia e arte) e traduzir matérias tão complexas para uma linguagem acessível? Há alguns anos que sentia a falta de um livro de base que pudesse aconselhar aos alunos que se iniciam no estudo científico da linguagem. Esse livro deveria mostrar a linguagem enquanto fenómeno biológico. Esta perspetiva é inteiramente ignorada por quem inicia esse estudo, pois a visão que prevalece no ensino secundário é a de que a linguagem tem uma função comunicativa. Pensei que poderia escrever um livro que servisse não apenas os alunos e a comunidade académica, mas também um público alargado. O rigor é uma preocupação de qualquer cientista. A escolha de uma palavra errada altera a descrição do objeto, fazendo que se construa uma conceptualização errónea acerca desse objeto. Na escrita deste livro, não abandonei o léxico técnico, mas tive por isso a preocupação de explicitar ao longo do texto e num glossário final o significado de cada palavrinha técnica. Ao escrever o livro, assumi o meu papel de docente. Escrevi sobre cada assunto como se estivesse na sala de aula. A aula não é apenas um momento de descoberta para o aluno. Também o é para o professor. Há trinta anos que leciono sobre o contributo de Ferdinand de Saussure para o desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.