Pode conter mentiras
Os maços de tabaco trazem, por imposição legal, um aviso: fumar mata.
Alex Edmans, professor de Finanças na London Business School, defende no livro Pode Conter Mentiras, que acabei de ler esta semana, que grande parte da informação que consumimos (estatísticas, relatórios e, sobretudo, estudos) mereceria rótulo semelhante.
Não porque tudo seja falso, mas porque a manipulação raramente é uma mentira grosseira.
Chega embrulhada em números, gráficos e credenciais académicas, explorando o nosso viés de confirmação e o pensamento binário.
Edmans propõe uma escada de inferência: uma afirmação não é um facto, um facto não é um dado, dados não são evidência, evidência não é prova.
Subir cada degrau exige escrutínio.
O número no fim de uma folha de Excel pode estar matematicamente certo e, ainda assim, dizer muito pouco sobre a realidade.
Isto acontece porque o decisor político encomenda muitas vezes o estudo quando, na prática, a decisão já está tomada.
É a inversão perfeita do método: em vez de políticas baseadas em evidência, produz-se evidência baseada na política.
Primeiro escolhe-se a resposta; depois procuram-se os números que permitam chegar até ela.
O Aeroporto de Beja é, talvez, o exemplo mais claro e paradigmático de como esta folha de cálculo pode ser usada para credibilizar elefantes brancos sem sentido.
Antes de a primeira pedra ser lançada, não faltaram dezenas de estudos de viabilidade, projeções de tráfego altamente otimistas e fundamentações financeiras que pareciam irrepreensíveis no papel.
Os pressupostos foram cirurgicamente escolhidos para justificar a obra que o poder político desejava inaugurar.
A realidade encarregou-se de desmentir cada fórmula matemática.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.