A tirania da gorjeta
Há um ritual que já não surpreende ninguém, mas que continua a provocar um ligeiro desconforto sempre que se repete.
Nos últimos anos, tornou-se praticamente inevitável em muitos destinos turísticos e começa também a ganhar terreno em Portugal.
O turista termina uma refeição, bebe um café, compra um gelado ou apanha um táxi.
Pede a conta, aproxima o cartão do terminal de pagamento e, quando julga que a transação terminou, surge no ecrã uma inesperada pergunta de carácter moral.
Quanto gostaria de deixar de gorjeta? As opções aparecem cuidadosamente ordenadas, começando numa percentagem suficientemente elevada para estabelecer aquilo que parece ser a medida mínima da generosidade aceitável.
A possibilidade de não deixar nada continua lá, naturalmente, mas discretamente remetida para um botão cinzento, quase clandestino, que parece reservado aos avarentos, aos insensíveis ou, no limite, aos sociopatas.
Num instante, deixámos de estar apenas a pagar por um serviço.
O terminal transformou-se num pequeno e silencioso juiz moral, e a gorjeta numa espécie de teste público à nossa decência.
Não tenho absolutamente nada contra as gorjetas.
Sempre fizeram sentido enquanto gesto espontâneo de reconhecimento por um serviço particularmente bom.
O problema começa quando deixam de ser voluntárias para se transformarem numa expectativa social.
O fenómeno ganhou até um nome: tip inflation, ou tipflation.
A expressão descreve duas tendências simultâneas: espera-se gorjeta em cada vez mais situações e espera-se que seja cada vez maior.
Os antigos 5% ou 10% foram cedendo lugar a sugestões de 15%, 20% ou mesmo 25%, enquanto o pedido de gratificação se estendeu muito para além do restaurante tradicional.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.