Paulo Portas e as eleições na Alemanha: "Está a acontecer uma reabilitação de duas memórias totalitárias"
Paulo Portas considera que os resultados eleitorais no leste da Alemanha não podem ser explicados apenas pelo descontentamento económico ou pelo fracasso da reunificação. Para o comentador, a subida da extrema-direita revela sobretudo uma crise de memória histórica e política: “O que está a acontecer, e é por isso que eu considero grave, é, por um lado, uma amnésia coletiva sobre o que foi a ascensão do nazismo e, por outro, uma amnésia coletiva sobre o que era a República Democrática Alemã. Portanto, no termo do comunismo, enfim, tanto do nazismo como do comunismo.”
A análise assenta numa comparação entre o desempenho da AfD nos antigos estados da Alemanha de Leste e os resultados obtidos na parte ocidental do país. Portas sublinha que a diferença é demasiado expressiva para ser ignorada: “Na Saxónia-Anhalt, a AfD, o partido da extrema-direita, assumidamente e com parafernália e genealogia associada ao nazismo, teve 43%. Agora, hoje, no Mecklenburg, teve 37%. (...) Isto são percentagens entre 35% e 40%, em média, que a AfD tem no leste da Alemanha e está muito longe de acontecer uma tal coisa na antiga Alemanha Ocidental, onde a AfD oscila entre 15% e 20%.”
Paulo Portas rejeita também a ideia de que a explicação esteja apenas na pobreza, no desemprego ou numa desigualdade económica persistente entre as duas Alemanhas. “Não se trata do falhanço da reunificação económica. Já que o disse, a Alemanha de Leste de hoje tem cinco vezes mais PIB per capita do que tinha quando o muro caiu e, portanto, ficou mais próspera. Para dar um exemplo, é bom que as pessoas tenham a noção de que o PIB per capita, ou rendimento por pessoa, de um alemão de leste é o dobro de um português”, afirma, antes de lembrar as várias transições que estão a pressionar a economia alemã.
A tese de Portas é que, em paralelo com a afirmação da AfD, está a ocorrer a recuperação eleitoral de forças ligadas ao antigo sistema comunista. “Sucede que o que está a acontecer é, portanto, isto: é uma reabilitação de duas memórias totalitárias. Uma na Alemanha de Leste como um todo e hoje, em particular, em Berlim, mas os partidos herdeiros da RDA, que são dois, o Die Linke e o BSW, mais a AfD, nas cinco províncias do leste, que são hoje estados federados, têm entre 50% e 60% dos votos”, sustenta.
É neste ponto que o comentador identifica uma convergência entre extremos que, à partida, parecem colocados em campos opostos. “A extrema-esquerda e a extrema-direita na Alemanha, não só, mas na Alemanha em particular, têm ambas a mesma afinidade com Putin. Têm afinidade com Putin, têm o mesmo ódio aos imigrantes, sejam quais forem, e têm o mesmo ódio à economia de mercado ou ao capitalismo, se quiser. E é por isso que se entendem naturalmente. Os extremos tocam-se”, afirma.
A aproximação entre o Canadá e a União Europeia é vista por Portas como uma oportunidade para reforçar a posição económica e estratégica da Europa num mundo mais instável. “A aproximação entre o Canadá e a Europa, que eu acho saudável, é poderosa do ponto de vista económico.
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