Estamos a afundar-nos antes de entrar na água
Há histórias que, mesmo sem sabermos se aconteceram realmente, possuem a estranha capacidade de nos revelar uma verdade que os factos, por vezes, não conseguem dizer. Não porque sejam necessariamente verdadeiras, mas porque nos colocam diante de nós próprios, das nossas fragilidades, das nossas contradições e daqueles medos que tantas vezes escondemos até de nós mesmos. São histórias que acabam por nos ler a nós muito mais do que nós as lemos a elas.
Conta-se que um alpinista escalava sozinho uma montanha quando, já ao cair da noite, perdeu o equilíbrio e ficou suspenso apenas por uma corda. A escuridão era tão cerrada que lhe era impossível distinguir o céu da terra. Não via o fundo do precipício, não sabia a distância que o separava do chão e, naquele instante, tinha apenas uma certeza: aquela corda parecia ser a única coisa que o separava da morte. Agarrou-se a ela com todas as forças e começou, desesperadamente, a pedir ajuda.
Depois de um longo silêncio, ouviu uma voz que lhe perguntou: «Confias em Mim?» O homem respondeu que sim. Então a voz tornou a fazer-se ouvir: «Larga a corda.» Mas ele não conseguiu. Queria confiar, certamente, mas o medo era maior do que a confiança e dizia-lhe que abrir as mãos seria escolher a morte. Permaneceu agarrado durante toda a noite àquilo que acreditava ser a sua salvação e, na manhã seguinte, encontraram-no sem vida, suspenso a menos de um metro do chão.
Talvez esta história nunca tenha acontecido. Mas aquilo que ela conta acontece todos os dias. Acontece quando adiamos indefinidamente uma decisão que sabemos necessária, quando permanecemos presos a situações que nos destroem apenas porque receamos aquilo que virá depois, quando desistimos de um sonho para não enfrentarmos a possibilidade do fracasso, quando deixamos uma palavra por dizer porque tememos a reacção de quem a vai escutar ou quando preferimos uma infelicidade conhecida à incerteza de um caminho novo. Há momentos em que nos agarramos tanto àquilo que julgamos dar-nos segurança que já nem percebemos que é precisamente isso que nos mantém suspensos.
O medo faz parte da condição humana e seria ingénuo imaginar uma vida completamente livre dele. Há medos que nos protegem, que nos tornam prudentes, que nos fazem reconhecer os nossos limites e evitar perigos desnecessários. O problema começa quando o medo deixa de ser um visitante ocasional e se transforma no arquitecto da nossa existência. Quando isso acontece, já não decidimos a partir daquilo em que acreditamos, mas daquilo que receamos; já não escolhemos o que consideramos verdadeiro ou bom, escolhemos apenas aquilo que parece menos arriscado. E, quase sem percebermos, vamos diminuindo a vida, estreitando horizontes e fechando portas, até descobrirmos que algumas das prisões mais difíceis de abandonar não têm muros nem grades, porque foram sendo construídas lentamente dentro de nós.
Talvez este seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca tivemos tantos instrumentos para tentar antecipar o que vai acontecer e nunca pareceu tão difícil conviver com aquilo que não podemos prever.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.