O armamento dos monárquicos e os Freitas do Amaral
Há histórias que permanecem durante décadas dentro das famílias e que, quando são recuperadas através dos documentos, permitem olhar para a História de Portugal a partir de uma perspectiva muito diferente daquela que encontramos nos manuais escolares. Em Janeiro de 1919, quando a Monarquia do Norte procurava restaurar a Monarquia em Portugal, um carregamento de armamento apreendido nas Caldas das Taipas acabaria por conduzir as autoridades até à casa de uma família de Guimarães: os Freitas do Amaral. A casa era a Casa do Barreiro, em Santa Maria do Souto, pertencente a Fernando Freitas do Amaral, e o armamento, segundo se apurou na altura, tinha permanecido ali escondido durante alguns dias. O episódio aconteceu num dos períodos mais turbulentos da Primeira República. A implantação da República, em 1910, não tinha eliminado a questão monárquica e, nos anos seguintes, os conflitos políticos, as revoltas militares e a instabilidade governativa foram-se sucedendo. O assassinato de Sidónio Pais, em Dezembro de 1918, agravou ainda mais a situação e abriu uma oportunidade para os sectores monárquicos que pretendiam aproveitar a fragilidade do regime republicano. Em Janeiro de 1919, Paiva Couceiro atravessou a fronteira e iniciou a tentativa de restauração monárquica no Norte. No Porto foi instalada uma Junta Governativa do Reino e, em várias localidades, os partidários da Monarquia procuraram ocupar edifícios públicos e substituir as autoridades republicanas. Guimarães viveu directamente esses acontecimentos. A cidade assistiu à mobilização de homens, à circulação de armas e à ocupação de edifícios públicos, enquanto entre os militares e a população existiam posições políticas muito diferentes. Os monárquicos chegaram a conseguir importantes apoios e, durante alguns dias, a situação pareceu suficientemente favorável para que muitos acreditassem que a República poderia efectivamente ser substituída. Mas a tentativa de restauração não se limitava aos grandes movimentos de tropas. Havia também uma dimensão clandestina, constituída por pessoas que apoiavam a causa monárquica e por casas particulares onde homens e armas podiam encontrar abrigo. Foi nesse contexto que surgiu a Casa do Barreiro.
O armamento que viria a ser apreendido nas Caldas das Taipas esteve, segundo se apurou, escondido durante alguns dias na casa de Fernando Freitas do Amaral. O documento é particularmente claro neste ponto: foi precisamente essa descoberta que levou à sua incriminação por alegada participação num “complot monárquico”. E Fernando não foi o único membro da família atingido pelas suspeitas, porque também o seu irmão António Freitas do Amaral foi considerado suspeito de participar no mesmo movimento. A partir desse momento, a situação deixou de ser apenas uma questão política e passou a representar um perigo concreto para os dois irmãos. As autoridades procuravam prendê-los. Fernando não se encontrava em casa e começou então uma procura que demonstra bem o ambiente vivido naquela época.
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