Mão exigente: quem tolera cedo reprime tarde
Emmanuel Macron pediu às forças de segurança, contou o seu ministro do Interior, que estivessem “na empatia” com os liceais franceses, quando os liceus já tinham passado do bloqueio ao incêndio e vários menores tinham ficado gravemente feridos. Dias depois, pedia calma, ordem e respeito pelas pessoas e pelos bens. A oscilação diz muito sobre as lideranças europeias, que confundem a brandura no tratamento da pessoa humana com a brandura perante a ilegalidade. A primeira é uma conquista civilizacional. A segunda é uma abdicação.
O movimento começou por uma queixa legítima, escolas degradadas e sem professores. Em poucos dias deixou de ser dos alunos. Vieram os eleitos da França Insubmissa, as foices e os martelos, as bandeiras palestinianas à porta das escolas. Mas não se chega ao incêndio de repente. Chega-se por anos de tolerância perante a pequena infração, em que cada recuo foi lido como licença. Quem tolera cedo acaba a reprimir tarde, e reprime pior.
O método é conhecido: o espaço ocupado, a parede pintada, o património vandalizado. Sem consequência, a fasquia sobe. Para muitos, o objetivo não é a reivindicação, é a reação do Estado. A carga policial filmada vale mais do que mil argumentos, e muita comunicação social conta o fim da história sem o princípio.
A convergência não é acaso. Em 1985, Ernesto Laclau e Chantal Mouffe constataram que a classe operária já não bastava para mobilizar e propuseram juntar reivindicações sem nada em comum, feministas, ecologistas, antirracistas, identitárias, numa “cadeia de equivalências” unida por um adversário partilhado. O que as liga não é um programa, é uma fronteira entre “nós” e “eles”. Mélenchon e o Podemos fizeram desta ideia estratégia. E uma frente que se define pelo inimigo aceita qualquer aliado que partilhe o inimigo.
Em França, essa lógica abriu a porta ao islamismo político. Nada o une à extrema-esquerda no essencial, nem o lugar da mulher, nem a religião, nem a liberdade. Unem-nos os inimigos: o Estado, a polícia, o Ocidente, a Igreja, Israel. A causa palestiniana, que merece ser defendida como causa de um povo, tornou-se o cimento, e é por isso que aparece à porta de liceus que nada têm que ver com Gaza. Por isso também foi canibalizada. Organizações como a Samidoun, proibida na Alemanha depois de celebrar o 7 de Outubro e classificada por Washington e Otava como fachada da Frente Popular de Libertação da Palestina, marcham por essa Europa fora ao lado de estudantes e sindicatos.
O Porto não é Saint-Denis. Mas o método viaja. Depois da acampada da Puerta del Sol, em Madrid, um movimento chamado “Não consegues pagar renda? Traz tenda” tentou reproduzi-la na Praça D. João I. A manifestação de mil e quinhentas pessoas era legal. O acampamento, com estruturas e para lá do horário que a lei fixa às reuniões em espaço público, não. Na segunda-feira a polícia retirou as tendas sem incidentes, e logo se passou a discutir a polícia e não a ocupação. Na quarta-feira as tendas voltaram, depois de a Câmara ter declarado a ocupação indevida e ordenado a remoção. Quem regressa nessas condições já não se manifesta; escolhe o confronto.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.