Sein Noção
Não sei se contagiados pelos cordões de adolescentes que volta e meia tentam parar o trânsito ou pela antiga porta-voz do BE, que deu a conhecer à maioria dos portugueses a expressão “flotilha”, meia dúzia de artistas brindaram-nos com mais um conjunto de atuações do ativismo moderno que, claramente, padece de um evidente problema de escala.
A recente vaga de desistências de artistas e humoristas portugueses do festival Commedia a La Carte , motivada pela presença de Jerry Seinfeld e pelas suas posições de apoio a Israel e desacreditação da causa palestiniana, mostra-nos que o parece estar realmente em causa é o direito fundamental dos primeiros protegerem as respetivas reputações profissionais, o que em nada se relaciona com o que vai sucedendo em Gaza.
Procedendo a uma honesta análise, mesmo perante o cenário mais desfavorável – aquele em que, sem qualquer margem para discussão, Seinfeld é politicamente repreensível e as suas posições revelam grave e condenável insensibilidade – cumpre questionar o que ganha a causa palestiniana, ou o humanismo em toda a sua amplitude, com a debandada de uns artistas portugueses num festival voltado para a comédia?
No entanto, ganha o público em geral quando dispõe de mais elementos para conseguir perceber de que lado da fronteira se posicionam os desistentes, se do lado do ativismo político ou da birra corporativa.
O primeiro exige inconformismo com impacto real, assunção de riscos e debate de ideias. Por sua vez, a segunda, predileta no nosso ecossistema mediático, limita-se à desresponsabilização moral e ao alinhamento profilático, por via do qual o artista retira o seu nome apenas para não «ficar mal na fotografia».
Os artistas não são imunes à maturidade e honestidade intelectual, devendo mostrar-se capazes de separar a arte do humorista dos desabafos geopolíticos que o mesmo profere.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.