Câmaras fixas não chegam: Baixa precisa de vigilância aérea
Escrevo este texto a título pessoal, não em nome de nenhum dos coletivos que fundei ou estou ativo embora, de facto, seja um tema em praticamente todos estejam a acompanhar muito de perto: o fenómeno do tráfico e da simulação de tráfico de estupefacientes na Baixa de Lisboa, como a venda de “louro prensado” a turistas incautos, um problema que a própria PSP reconhece publicamente há mais de duas décadas. É por isso ainda mais estranho que, com um problema tão antigo e tão bem identificado, continuemos a discutir a resposta em termos que me parecem desatualizados: câmaras fixas instaladas em pontos concretos da cidade.
A ideia de colocar câmaras fixas na Baixa tem um apelo óbvio: é muito visível, é simples de explicar e dá a sensação imediata de que algo está a ser feito. Mas acredito que, perante um fenómeno de insegurança tão duradouro, é também uma resposta com um limite estrutural que raramente se discute: o do deslocação dos criminosos. Quem vende produtos falsos fazendo-os passar por droga não tem de operar sempre nos mesmos lugares. Basta que perceba onde está uma câmara (e normalmente perceberá, até porque a própria lei impõe que a instalação seja assinalada de forma visível) para que a atividade se mude cinquenta ou cem metros mais além, para uma rua, um largo ou uma esquina fora do alcance da objetiva. O resultado, temo bem, não seria menos criminalidade na Baixa: seria a mesma criminalidade, espalhada por um perímetro maior e, para os moradores dessas novas zonas, um problema que antes não tinham.
É aqui que a diferença entre uma câmara fixa e um drone me parece decisiva. Um drone não está preso a um poste ou a uma parede: pode acompanhar a atividade onde quer que esta se desloque, cobrir em poucos minutos uma área que pediria dezenas de câmaras fixas para vigiar de forma equivalente, e ser reposicionado assim que se perceba um novo padrão de concentração. Numa cidade onde o problema já se sabe que se desloca consoante a fiscalização, parece-me que só um meio igualmente móvel tem alguma hipótese de acompanhar essa deslocação, em vez de se limitar a empurrá-la para o lado.
O que torna esta discussão, para mim, ainda mais frustrante é que já existem meios disponíveis. A PSP Lisboa tem vários drones não havendo sinais de que os usa de forma recorrente e sistemática para além da protecção a eventos. E, tanto quanto consegui apurar junto de fontes públicas, não existe qualquer pedido de autorização, parecer ou processo relativo ao uso de drones pela PSP para vigilância de tráfico de droga em Lisboa: os pareceres que encontrei sobre câmaras portáteis em aeronaves não tripuladas dizem respeito a proteção florestal e deteção de incêndios rurais, a bodycams individuais da Polícia Marítima, e a sistemas de câmaras fixas em Vilamoura, Mafra e Portimão. Nada, portanto, sobre a Baixa de Lisboa nem sobre esta finalidade em concreto.
Não creio que isto seja apenas falta de vontade.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.