Sigilo da fonte e o teorema da absolvição perpétua
MARGARIDA (a caminho de casa): Como pude antes ter língua tão afiada Para uma pobre moça transviada? Porque é que a língua nunca me chegava Quando eu a culpa alheia condenava? E via-a negra, e mais a enegrecia, E nunca assaz negra me parecia, E benzia-me no meu orgulho inchado, E agora eu própria sou presa do pecado! Mas tudo o que a isso me levou Foi tão bom, foi tão doce, Deus meu! [1] Um novo mercado em vista? Ou ainda: se Vorcaro fosse um banqueiro-jornalista? Há um setor injustamente negligenciado quando o assunto é a aferição da pujança econômica nacional.
Ao lado das bets e afins, poucos ramos se mostraram tão lucrativos, a ponto de gerar livros, cursos, revistas e jornais, quanto aquele cuidadosamente cultivado por parcela da mídia: a “crítica democrática” ao Supremo Tribunal Federal.
Mas há, ao que parece, um novo mercado em formação: o da “fonte jornalística”.
Bastaria a qualquer um autoproclamar-se jornalista para estar imune a buscas e apreensões, ou quaisquer medidas judiciais invasivas.
A partir da histérica e histriônica reação da mídia profissional, um pequeno pensamento irônico não saia da mente: o maior arrependimento atual de Daniel Vorcaro possivelmente é nunca ter tido um blog .
Nesse cenário, todos os seus problemas estariam resolvidos.
Afinal, seus celulares deveriam ser devolvidos e nunca desbloqueados.
Ele deveria ter se autoproclamado banqueiro-jornalista ou jornalista-banqueiro.
Se há 15 anos os nomes dos ministros do STF eram pouco conhecidos do grande público, hoje não há cidadão que não se sinta no direito, e talvez no dever, de “denunciar” o STF como peça fundamental de uma “oligarquia”, fórmula de Joaquim Falcão que presta um desserviço ao debate público brasileiro, contudo, esse é um pensamento que deverá ser mais bem desenvolvido em outras oportunidades.
A mídia tem memória curta e o teorema da absolvição perpétua Já tratei, em outra ocasião, de como parcela da mídia mantém o STF refém do Panóptico, o instrumento da disciplina perfeita.
Sob a ameaça constante da vigilância dos virtuosos, tenta-se constranger a corte a agir sempre de forma majoritária e “popular” [2] .
Afinal, a popularidade é, hoje, o parâmetro dos parâmetros .
O resultado é uma “inversão democrática” no sentido de que não é mais o povo quem legitima suas pretensões por meio de partidos, mídia e parlamento, mas são esses grupos que buscam legitimar suas próprias pretensões corporativas às custas do “povo”, que se torna, à semelhança do Estado em Bourdieu, uma entidade teológica que só existe porque se acredita que ela exista [3] .
Criou-se, em síntese, o mito de um povo que se opõe, permanente e uniformemente, a tudo o que decide a Suprema Corte.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.conjur.com.br — o conteúdo pertence a Consultor Jurídico.