Por que 60% dos alemães do Leste se sentem cidadãos de segunda classe?
O Muro de Berlim caiu.
A Alemanha Oriental desapareceu.
A moeda mudou, as fronteiras sumiram, os mapas foram refeitos e uma geração inteira cresceu ouvindo que a reunificação encerrara uma das grandes fraturas europeias do século XX.
Trinta e seis anos depois, a narrativa oficial esbarra num dado duro demais para caber nas cerimônias: cerca de 60% dos alemães do Leste ainda se consideram cidadãos de segunda classe.
Steffen Mau conhece esse problema por dentro.
Nascido em Rostock, na antiga RDA, professor da Universidade Humboldt de Berlim e pesquisador do Instituto Max Planck, ele mostrou recentemente no Le Monde que esse sentimento aparece com força entre jovens nascidos depois de 1990.
Gente que jamais viu um posto de fronteira, nunca viveu sob a Stasi e nunca carregou um passaporte da Alemanha Oriental tornou-se mais enfática na defesa de uma identidade do Leste.
A reunificação resolveu o mapa muito antes de resolver a vida.
Os pais desses jovens receberam uma ordem histórica clara: adaptem-se.
O modelo político seria o do Oeste.
A moeda, as empresas, as universidades, os tribunais, o mercado de trabalho, os padrões de prestígio e a interpretação pública do passado chegariam fundamentalmente do lado vencedor.
Milhões fizeram o esforço exigido.
Os filhos, três décadas depois, olharam para o saldo.
Compartilhar passaporte não garantiu participação equivalente no patrimônio, no poder ou no reconhecimento.
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