Quando os EUA podem e o Brasil não pode
O editorial de O Estado de São Paulo na manhã desta segunda-feira, 24 de agosto, que critica duramente a política fiscal brasileira sob a ótica neoliberal merece uma análise cuidadosa de suas premissas, e de suas convenientes omissões.
Quando se compara a trajetória das contas públicas do Brasil com a de economias centrais, especialmente os Estados Unidos, revela-se um duplo padrão que expõe o caráter político-ideológico, não técnico, do diagnóstico apresentado.
A hipocrisia dos números Se a lógica fiscal do editorial — que cobra cortes de gastos e ajuste recessivo — fosse aplicada aos Estados Unidos, a maior economia do mundo já teria decretado falência, para usar um termo coloquial.
Os números são eloquentes.
A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões em agosto de 2026.
A relação dívida/PIB dos EUA já está em 120%, devendo crescer para 130% em 10 anos e 175% em 30 anos.
O déficit dos primeiros 10 meses do ano fiscal de 2026 ultrapassou 6% do PIB.
Compare-se com o Brasil.
Nossa dívida bruta gira em torno de 89% do PIB, e o déficit efetivo projetado pela própria IFI citada no editorial é de 0,4% do PIB.
Qual das duas situações parece mais “insustentável” sob a ótica fiscalista? E, no entanto, não se vê o FMI ou agências de rating cobrando dos EUA o mesmo “ajuste” que se exige do Brasil.
A origem histórica da receita neoliberal A lógica que o editorial do Estadão defende — cortar gastos sociais e com a máquina pública — não nasceu de uma verdade econômica incontestável, mas de um contexto histórico preciso.
Quando o Brasil ainda devia ao FMI, essa receita tinha um objetivo claro: não superar a dívida interna, mas acumular recursos para pagar credores externos.
Foi exatamente isso que o governo Lula fez em seu primeiro ciclo, pagando integralmente a dívida com o FMI e livrando o país da tutela do organismo.
A receita neoliberal serviu, então, a um propósito que já foi cumprido.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistaforum.com.br — o conteúdo pertence a Revista Fórum.