Produtora de ‘Dark Horse’ esconde da Ancine quem mandava no dinheiro de Vorcaro
A produtora responsável por rodar “Dark Horse” no Brasil está tentando se livrar de uma punição da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, com uma estratégia no mínimo inusitada.
Em defesa administrativa para escapar da multa por ter filmado o longa-metragem sobre a vida de Jair Bolsonaro sem cumprir as normas do setor, a Go Up Entertainment Ltda diz que atuou apenas como prestadora de serviços locais e que quem contratou e pagou o elenco principal do filme foi uma “empresa estrangeira”, nunca nomeada pelos advogados no documento.
O nome não aparece porque essa empresa é a Goup Entertainment LLC, com sede em Miami, Flórida — cuja sócia-administradora é a mesma da Go Up brasileira, a jornalista Karina Ferreira da Gama.
Ainda que as duas empresas tenham registros em países diferentes, a dona é a mesma: Karina.
Também há apenas um site para divulgar o trabalho da produtora, em versões em inglês, português e espanhol.
Logo, a Go Up Ltda não é prestadora de serviços de terceiros — é o braço brasileiro de uma estrutura que ela mesma controla, e que, por isso, tinha obrigação de comunicar as filmagens à Ancine antes de começar, conforme previsto nas regras.
Documentos obtidos pelo Intercept Brasil mostram que a estrutura da produção de “Dark Horse” foi formalizada em contrato assinado em novembro de 2023 com os produtores executivos Mario Frias, deputado federal do PL e candidato à reeleição, e Eduardo Bolsonaro, que era deputado federal do PL na época.
O contrato prevê a Goup LLC como responsável pelo “desenvolvimento, pré-produção, produção do filme, pela decisão sobre a forma de distribuir ou da distribuidora, pós-produção e por todos os aspectos relacionados à comercialização do ativo cinematográfico”.
E a Go Up brasileira já sabia disso muito antes de apresentar sua defesa.
No dia 17 de julho, Karina e Michael Brian Davis, na condição de acionistas e diretores da Goup nos EUA, assinaram em Miami um Memorando de Entendimento e Declaração de Relação Jurídica dirigido à própria Ancine, no mesmo processo administrativo em que a defesa seria protocolada, em agosto.
Nele, a Goup LLC é nomeada expressamente como “Licenciante e titular declarada dos direitos sobre a Obra”.
A cláusula 5.1 declara, “de forma expressa e para fins de resposta à exigência administrativa”, que a produção “foi realizada parcialmente no território da República Federativa do Brasil”.
Ou seja, a produtora sabia o nome – porque é ela mesma, só que do outro lado da fronteira – e o disse à Ancine quando quis — em julho, para tratar de licenciamento de distribuição, e não em agosto, quando o assunto passou a ser a multa.
Nós procuramos a Go Up e Karina Ferreira da Gama, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.intercept.com.br — o conteúdo pertence a Intercept Brasil.