Crise nos mercados deve se prolongar pelas próximas semanas, dizem bancos
A crise nos mercados após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve se prolongar, segundo analistas de bancos. BTG Pactual e Morgan Stanley veem espaço para perdas de dois dígitos nas ações brasileiras, mais desvalorização do real e alta dos juros, num movimento que dependerá agora dos sinais do governo sobre ajuste fiscal e da escolha da nova equipe econômica.
Os dois bancos divulgaram nesta segunda-feira (26) relatórios sobre o resultado da eleição e convergem na avaliação de que a reação negativa pode se estender pelas próximas semanas. As projeções partem da preocupação de que o aumento dos gastos e benefícios anunciados durante a campanha agrave uma situação fiscal que já era considerada delicada.
O BTG estima que o Ibovespa possa cair para a região dos 170 mil pontos, uma perda de cerca de 17% em relação ao nível usado como referência pelo banco. Na sexta-feira (24), o principal índice da Bolsa havia fechado em 205 mil. Hoje, por volta das 12h40, marcava 174 mil pontos .
Para o real, a estimativa é de uma desvalorização entre 10% e 15%. Medida em dólares, a perda das ações brasileiras poderia chegar a cerca de 30%.
O Morgan Stanley trabalha com uma correção entre 20% e 30% para as ações brasileiras e também espera uma deterioração relevante nos juros e no câmbio. Num primeiro movimento, calcula que o dólar possa testar R$ 5,50. Se o mercado passar a incorporar um prêmio maior pelo risco fiscal, a moeda poderia avançar para a faixa de R$ 5,60 a R$ 5,70.
Às 13h desta segunda-feira, o dólar era negociado a R$ 5,45. Na sexta, havia fechado em R$ 4,993.
O Morgan Stanley afirma que, se o novo governo não der sinais de consolidação das contas públicas, é possível que o dólar chega a R$ 6. O próprio banco ressalta, porém, que esse não é seu cenário imediato. A expectativa é de uma deterioração em etapas, e uma sinalização de compromisso com o ajuste fiscal nas próximas semanas poderia fazer os investidores começarem a reduzir parte das apostas contra os ativos brasileiros.
Passada a eleição, os dois relatórios colocam as contas públicas no centro das decisões dos investidores. O Morgan Stanley estima déficit primário de 0,7% do PIB em 2027 e dívida bruta de 86,9% do PIB, mas vê risco de resultados piores. O banco afirma que o Brasil entrará no próximo ano com dívida crescente, mais de 91% das despesas obrigatórias e pouco espaço para um novo ajuste baseado principalmente no aumento da arrecadação.
A conta ficou mais difícil, na avaliação do banco, com as medidas anunciadas durante a campanha eleitoral . O relatório calcula em R$ 22,7 bilhões o gasto adicional em 2027 com o aumento do Bolsa Família. A proibição das apostas online retiraria cerca de R$ 5,26 bilhões da arrecadação, enquanto o Desenrola 3.0 poderia envolver R$ 15 bilhões em compromissos financeiros, dos quais R$ 5 bilhões no próximo ano.
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