Todos os Filhos do Presidente
Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'
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O mundo teve que atravessar séculos e banhos de sangue para enfim ver as ideias do Iluminismo se tornarem realidade, fuzilar czares e empurrar para a guilhotina reis e rainhas. Consolidou-se aos poucos a tese de que um tirano não governava acima das leis.
Acabou o absolutismo. O poder político deixou de ser legitimado pelo direito divino e hereditariedade. Afinal, o sangue que jorra em todos é da mesma cor. Mas Flávio Bolsonaro , o 01, varão do ex-presidente Jair, se candidata ao mesmo cargo que foi do pai.
O nome Bolsonaro já foi franquia em São Paulo em 2018, o BolsoDoria —em baixa nas pesquisas para governador, o ex-prefeito João Doria atentou contra a história do PSDB e se aliou à extrema direita, fincando uma estaca no coração do partido.
Surge agora Hélio Bolsonaro, o Hélio Negão, deputado federal carioca que concorrerá pelo estado de Roraima e começa a ser chamado de 05. A família ganha a dinâmica de uma dinastia, casa real, um clã —ou, dependendo do ponto de vista, uma gangue.
Concorrem também ao Senado em 2026: Michele, a madrasta, e Carlos, o 02.
O chefe do clã apelida seus filhos por numerais, prática que desumaniza o indivíduo, torna-o um apêndice do pai, como se faz no Exército e no presídio: enumerados soldados e prisioneiros são colocados na condição de objeto de um sujeito maior, a hierarquia.
É uma família politicamente disfuncional. O pai está preso e inelegível. O 01 está atolado em escândalos. Eduardo, 03, deputado federal autoexilado nos EUA, perdeu o mandato por faltas e foi condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão.
Carlos era acusado de passar mais tempo numa repartição clandestina conhecida como Gabinete do Ódio que na cadeira de vereador do Rio de Janeiro.
O caçula, Jair Renan, 04, é vereador de Camboriú (SC) e foi penalizado por faltas não justificáveis. Além disso, em 12 reuniões da Comissão de Segurança Pública, da qual faz parte, apareceu em apenas três. Sairá candidato a deputado federal por SC como Jair Renan Bolsonaro.
A ex-mulher, Rogéria Bolsonaro, foi duas vezes eleita vereadora no Rio de Janeiro. Renato Bolsonaro, irmão de Jair, já tentou se eleger oito vezes, e só conseguiu uma vitória eleitoral, em 1996, para vereador de Praia Grande. Também sai para deputado federal.
Pela primeira vez na nossa República, copia-se a prática do regime deposto em 1889: um filho cobiça o trono que já foi do pai.
Filhos de Collor de Mello, Itamar Franco, FHC e Dilma nem se meteram em carreiras políticas. Tocaram a vida, foram em frente. Luciana Temer, filha de Temer, foi vereadora por São Paulo. Das quatro filhas, foi a única a se tornar Sua Excelência.
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