Epidemia de recuperações judiciais: Casas Bahia (BHIA3) e Marabraz podem ser só o começo, diz CEO da A&S Partners
A onda de pedidos de recuperação judicial (RJ) no varejo brasileiro pode estar longe de terminar. Na avaliação do CEO da A&S Partners e especialistas em RJs, Wagner de Moraes, o cenário econômico deve continuar pressionando empresas endividadas e pode levar outras grandes companhias a enfrentar dificuldades financeiras nos próximos anos.
Na madrugada de segunda, a Casas Bahia ( BHIA3 ) entrou com pedido de recuperação judicial , após registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e declarar dívida de R$ 17,3 bilhões. A Marabraz , por sua vez, também protocolou pedido de RJ neste fim de semana, com dívidas de aproximadamente R$ 140 milhões.
‘Eu arrisco a dizer que esse ano de 2026, principalmente o ano de 2027, vai alavancar muito o volume de RJs de diversas áreas ou diversas organizações’, afirmou o executivo.
Segundo ele, há risco de o Brasil registrar níveis historicamente elevados de recuperações judiciais, diante da combinação de juros altos, baixo crescimento, endividamento e dificuldade de acesso ao crédito.
Para o CEO, a recuperação judicial não deve ser encarada como uma solução simples para a crise financeira de uma companhia. Embora permita renegociar dívidas e compromissos com credores, o processo pode provocar uma deterioração da relação com fornecedores e dificultar o abastecimento das lojas.
‘RJ é um processo extremamente complicado. Isso custa muito, muito, muito para a empresa, porque traz uma necessidade de liquidez muito forte’, afirmou.
No caso da Casas Bahia, ele vê um risco especialmente elevado por causa da dependência da companhia em relação ao crédito e à cadeia de fornecedores. A varejista afirmou em seu pedido de recuperação judicial ter R$ 16,4 bilhões em dívidas com credores sem garantia.
Na avaliação do executivo, fornecedores que antes concediam prazo para pagamento podem passar a exigir condições mais rígidas depois que uma empresa entra em RJ.
‘Fornecedores que antes vendiam para você, ou seja, mais a prazo, quando você entra num processo de RJ, isso não acontece mais’, disse.
Esse movimento pode criar um efeito cascata: menor acesso a fornecedores, dificuldade para recompor estoques, piora do mix de produtos e, consequentemente, queda nas vendas.
A própria Casas Bahia já enfrenta dificuldades de reposição. A companhia busca um financiamento de R$ 1 bilhão na modalidade DIP para reforçar o caixa e recompor estoques. O valor dos estoques caiu mais de 20% no segundo trimestre, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (17).
‘Existe um risco muito grande de ruptura e de ela não conseguir fazer a lição de casa do jeito que se deve, dentro dessa velocidade que se deve’, afirmou.
O executivo também vê um ambiente macroeconômico pouco favorável para empresas altamente alavancadas.
Na sua avaliação, o elevado nível de endividamento público reduz o espaço para uma queda mais consistente dos juros e mantém elevado o custo de capital das empresas.
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