Perfil analítico de Gilberto Gil evita louvor e ilumina ambiguidades
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O jornalista Tom Cardoso consolidou uma grife na literatura musical brasileira ao se especializar na anatomia dos mitos da MPB sem se render ao tom laudatório que costuma pasteurizar o gênero no país. Depois de destrinchar as trajetórias de Caetano Veloso e Chico Buarque, Cardoso fecha uma trilogia informal da canção com "Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil", lançado pela Editora 34. A obra não se propõe a ser uma biografia definitiva ou uma cronologia exaustiva. Trata-se de um perfil analítico estruturado em seis ensaios temáticos que buscam decifrar as contradições que movem um dos personagens mais complexos da cultura nacional.
O título sintetiza o espírito da investigação. Gil, frequentemente associado ao misticismo, à busca espiritual e a uma suposta imaterialidade zen, é confrontado com sua porção mais terrena, pragmática e, por vezes, ambiciosa. Cardoso opera na fresta entre o mito público e o homem político, revelando que o cantor baiano maneja a diplomacia e o cálculo institucional com a mesma destreza com que dedilha o violão. A narrativa flui sem o peso das amarras cronológicas convencionais, o que permite ao autor cruzar épocas para iluminar os paradoxos do biografado.
Um dos pontos mais agudos do livro reside na reconstituição das origens familiares de Gil e no choque ideológico com o pai, o médico José Gil Moreira (1913-1991). Enquanto o filho se tornava um dos alvos da repressão militar, sendo preso e exilado ao lado de Caetano no final dos anos 1960, o patriarca exercia a política na Bahia mimetizando o manual de sobrevivência das oligarquias locais. Cardoso revela que o pai do músico chegou a assinar atas de apoio formal ao golpe de 1964 e ao governo do general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). Essa revelação adiciona uma camada de complexidade psicológica à formação de Gil, explicitando o ambiente de conciliação e pragmatismo em que foi criado.
Esse DNA político se manifestaria de forma decisiva nas décadas seguintes. O livro examina com lupa a transição do Gil bicho-grilo dos anos 1970 para o homem de Estado que assumiu o Ministério da Cultura no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Cardoso não poupa o leitor das guinadas ideológicas do artista, lembrando sua aproximação com o governo de José Sarney na década de 1980 e o apoio explícito a Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990. O perfil traçado é o de um hábil negociador, capaz de flutuar entre espectros políticos opostos sem perder a interlocução com nenhum deles. O autor expõe inclusive contradições mais recentes, como o entusiasmo inicial de Gil com os desdobramentos da Operação Lava Jato, posicionamento que gerou desconforto em setores da esquerda.
Na esfera estética, o livro recupera o famoso episódio da passeata contra a guitarra elétrica em 1967, na qual Gil marchou ao lado de Elis Regina (1945-1982). Pouquíssimo tempo depois, o mesmo Gil subia ao palco do Festival da Record para defender "Domingo no Parque" acompanhado pelos Mutantes, abraçando a eletrificação e inaugurando a estética tropicalista.
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