'Pássaro mais barulhento do mundo' poderia abafar um show de rock com canto
Já imaginou um pássaro capaz de abafar um show de rock com o seu canto? Ele existe e se chama araponga-comum, uma espécie sul-americana que mede cerca de 27 cm de comprimento e tem a plumagem branca.
O macho da araponga-comum atinge incríveis 130 decibéis durante seu canto de acasalamento . Ele supera até a marca de 125 decibéis registrada anteriormente por sua parenta, a araponga-da-amazônia.
O canto dele é mais alto do que ficar na primeira fileira de um show de rock ou do que o ruído direto de uma furadeira de obra . "Isso faz desse habitante das florestas sul-americanas um forte candidato ao título de ave mais barulhenta do mundo", diz reportagem do ScienceNews .
Pesquisadores descobriram que o segredo está no tamanho das aves e na largura de seus bicos . Pássaros mais pesados e com aberturas de bico maiores conseguem projetar o som com muito mais eficiência, funcionando quase como alto-falantes naturais no meio da mata, conforme relataram os ecólogos comportamentais João Menezes e Jeff Podos, da Universidade de Massachusetts Amherst, em 29 de setembro, em publicação na revista Evolution .
Ainda não se sabe, porém, o porquê de a natureza ter levado esses animais a esse extremo . Foram analisados fatores como comportamento de acasalamento, densidade do habitat e capacidade de voo, mas nenhum explicou o fenômeno para todas as espécies. "Não fomos capazes de encontrar um padrão geral que se aplique às aves como um todo", diz o brasileiro Menezes.
A busca para entender esses extremos sonoros começou em meados de 2019 . Foi quando Podos e um colega coroaram a araponga-da-amazônia ( Procnias albus ), uma parenta amazônica do araponga-comum ( P. nudicollis ), como a recordista no vocal. Seus 125 decibéis foram os cantos de aves mais altos já medidos até então.
Para medir a barulheira, Podos usou um medidor de som de alta precisão e um telêmetro a laser . Ele carregou os instrumentos para matas, pântanos e campos abertos ao redor de sua casa, no oeste de Massachusetts, e mediu o canto de todas as aves que conseguiu encontrar —mariquitas, pardais, tordos e muito mais.
Após registrar algumas dezenas de espécies, ele recrutou Menezes, então estudante de pós-graduação, para ampliar a coleção . O brasileiro mediu vocalizações de aves da Mata Atlântica, perto de São Paulo, até as montanhas ao redor do Rio de Janeiro e além. Ele capturou de tudo: desde os suaves piados do besourinho-de-bico-vermelho até os ganidos da seriema.
Ao todo, eles compilaram dados sobre o volume vocal de 123 espécies , criando o que afirmam ser o maior conjunto de dados do tipo até o momento. Quanto mais pesada a ave, mais alto tendia a ser seu canto, o mesmo valia para aves com bicos mais largos.
Aves maiores têm potencial para gerar maiores pressões e fluxos respiratórios, enquanto características morfológicas como a abertura do bico podem afetar a eficiência com que a energia acústica se irradia. Gabriel Mindlin, biofísico da Universidade de Buenos Aires, na Argentina
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