Com fuga de Flávio, bolsonarismo fica sem herdeiro e a direita se mexe
A família Bolsonaro saiu da eleição sem candidato vitorioso e, dois dias depois, também sem quem a represente no país. O prazo de 24 horas para Flávio entregar os passaportes comum e diplomático venceu às 11h desta terça (27/10). Como ele não cumpriu a ordem e há relatos de que foi visto na Argentina, passou a ser tratado como foragido. Aliados afirmam que o governo Trump apoiou a saída e sinalizou que concederá asilo político. No entorno do senador, o episódio é tratado como perseguição. Nikolas Ferreira, por exemplo, questionou que segurança teria um cidadão comum se um candidato com 60 milhões de votos precisa deixar o país.
A fuga desmonta um plano traçado na véspera. Na segunda (26/10), uma reunião de Flávio com governadores e articuladores do PL havia definido que ele ficaria no Brasil para liderar a oposição ao governo Lula. Flávio liderou o primeiro turno, mas terminou o segundo com 48,21% dos votos válidos, contra 51,79% de Lula. Agora, ele deixa para trás um campo sem comando. Jair Bolsonaro está preso e inelegível, e Eduardo continua nos EUA. Contra Eduardo há um mandado de prisão no Brasil, e Flávio também pode ser preso se voltar.
A sucessão de sangue, aposta do patriarca desde o início, tem poucas opções. Carlos foi eleito senador por Santa Catarina, e Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado. Nenhum dos dois tem perfil para comandar o grupo. Carlos construiu a carreira nos bastidores. Em 2022, coordenou as redes sociais da campanha do pai, e não tem trânsito com partidos. Jair Renan, por sua vez, foi eleito vereador de Balneário Camboriú em 2024 e só agora chega ao Congresso, para o primeiro mandato. Não preciso nem dizer que é muito jovem para o papel.
O nome com mais votos próprios dentro da família é o da madrasta. Michelle foi a mais votada para o Senado no Distrito Federal, com 29,1% dos votos válidos, e terá oito anos de mandato. Ela também é antiga preferida do comando partidário. Valdemar Costa Neto já disse que, depois de Bolsonaro, ela era a única capaz de vencer Lula num segundo turno. O principal obstáculo do passado deixa de existir. Segundo Valdemar, Bolsonaro não queria Michelle num cargo executivo antes de ela ganhar experiência com um mandato.
E Valdemar, experiente político, já chamou Michelle Bolsonaro para perto e publicou nas redes sociais: “Recebi hoje a senadora eleita Michelle Bolsonaro para uma conversa sobre o futuro do nosso partido e os desafios que temos pela frente. Seguimos unidos, com diálogo, responsabilidade e compromisso com o Brasil”.
A relação com os enteados, porém, segue ruim. Michelle deixou a presidência do PL Mulher em junho e, mesmo depois de se reconciliar com Flávio, não se engajou na campanha dele. Antes disso, Eduardo a chamou de “imatura” por causa de um vídeo contra Flávio.
Nesta terça (27/10), a postura de Michelle foi ambígua. Segundo aliados, ela confirmou a pelo menos dois deles que o enteado havia deixado o país. Em público, ironizou a notícia e a chamou de fofoca. Ainda que tenha Valdemar ao seu lado, ela não decide sozinha.
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