Pássaros estão desaparecendo até em florestas preservadas. Esses pesquisadores talvez saibam por quê.
Texto Victor Bianchin | Design Cristielle Luise | Ilustração Carol D’Avila No calor úmido da mata amazônica, entre o númen da sombra e o crepitar da vegetação rasteira, um sujeito de sorte pode encontrar, sob os raios de luz que vencem o dossel (a camada superior de copas das árvores), o canto estridente do uirapuru.
Cinco notas, com a última se estendendo em um piado mais agudo, como um chamado: ih-uh, ih-uh, ihh.
Na tradição indígena, é uma declaração de amor: um garoto guerreiro teria se apaixonado pela filha do cacique da tribo e, sendo esse um amor proibido, teria pedido a Tupã que o transformasse em pássaro para que pudesse ficar ao lado da moça e alegrá-la com seu canto.
Para a banda Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, em 1963, era um lamento.
“Uirapuru, uirapuru / Seresteiro, cantador do meu sertão / Uirapuru, ô, uirapuru / Tens no canto as mágoas do meu coração.” Mas a flauta natural da Amazônia está se calando.
O uirapuru ( Cyphorhinus arada ) é uma das espécies que estão desaparecendo lentamente da floresta, assim como o vira-folha-de-bico-curto ( Sclerurus rufigularis ), a choquinha-pintada ( Myrmotherula guttata ), o vite-vite-uirapuru ( Hylophilus ochraceiceps ) e dezenas de outras.
À primeira vista, pode parecer obra dos suspeitos de sempre: motosserras, tratores, agrotóxicos, garimpos, incêndios criminosos.
Mas é aí que a situação fica estranha: o sumiço dessas aves foi observado em uma área de floresta não apenas protegida, como intacta.
Isso significa que a vegetação nunca foi desmatada ou alterada significativamente e que os humanos só pisam lá para fazer pesquisa.
Continua após a publicidade Qual a explicação então? Alguns cientistas acham que já sabem a resposta.
Mas, se estiverem certos, a situação é muito mais alarmante do que se pensava. <span class="hidden">–</span> Carol D'Avila/Superinteressante Dados do declínio A pesquisa que constatou a queda no número de pássaros foi publicada em 2020 e faz parte do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), criado em 1979.
O objeto do estudo foram 21 sítios numa área 80 km ao norte de Manaus (1) .
Continua após a publicidade O objetivo era repetir o mesmo trabalho científico conduzido na área por Rob Bierregaard, zoólogo estadunidense que estudou os pássaros em 34 sítios entre 1980 e 1984.
Os dados do PDBFF, coletados entre 2008 e 2016, permitiriam comparar os dois períodos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em super.abril.com.br — o conteúdo pertence a Superinteressante.