Crédito caro e renda pressionada levam inadimplência a recorde no país
A literatura econômica mostra que o crescimento do endividamento se dá em um período onde a taxa de juros costuma estar mais baixa, não mais alta — pois esta última inibe a contração de dívida —, ponderou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em evento na última semana.
A autoridade monetária comparou a alta na concessão de crédito pelas instituições e o consequente peso no bolso da população, dizendo que “não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento [também] cresceu” .
De fato, quando o BC derrubou a taxa básica de juros do país, a Selic, durante a pandemia, o custo do empréstimo pelos bancos ficou mais barato e o público buscou aproveitar o momento para sacar dinheiro.
“A forte expansão do crédito foi gestada no momento em que os receios quanto aos desdobramentos da pandemia levaram a um forte afrouxamento na política monetária”, relembra Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos) “Naquele momento tinha uma crise global, de retração econômica, tudo paralisado.
Para estimular a economia era necessário”, ressalta Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.
Em seguida do barateamento, veio o choque.
A inflação provocada pela pandemia forçou o Banco Central a voltar a apertar os juros, que chegaram a ficar no patamar de 13,75% por mais de um ano.
Após um afrouxamento entre meados de 2023 e de 2024, a Selic voltou a subir, chegando a 15% ao ano em junho de 2025.
Na esteira do crédito mais caro, subiu a inadimplência no país.
As métricas do BC consideram inadimplidos aqueles que possuem pelo menos uma parcela com atraso superior a 90 dias.
Em julho, a inadimplência atingiu 4,88% da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional, recorde da série histórica iniciada em março de 2011 .
“A origem do problema está ali naquele período de juros excessivamente baixos.
Tinha até razões, mas tem tanta coisa que não se sabia naquele momento, e aí veio uma expansão da demanda por crédito”, explica Marcelo Fonseca, economista-chefe da CVPar Investimentos.
Outro fator levantado foi o avanço acelerado de linhas emergenciais para pessoas físicas, que apresentam taxas de juros e riscos mais elevados, aponta Gonçalves.
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