Direita tem a chance de sair da relação tóxica com o clã Bolsonaro
Há relacionamentos que só acabam quando a conta chega. A da direita com a família Bolsonaro chegou no domingo (25), quando Flávio se tornou o primeiro candidato da história da República a liderar o primeiro turno e perder o segundo. Derrotado, em boa parte, pelo antibolsonarismo.
É a chance de a direita que come com garfo e faca aposentar um clã marcado pelo extremismo, pela cleptocracia, pela necropolítica e pelo apreço ao autoritarismo. Se vai aproveitar, são outros quinhentos.
Claro, Flávio teve mais de 59 milhões de votos, o que o credenciariam a líder da oposição, cargo para o qual ele já se autonomeou. Mas o senador é alvo de duas investigações da Polícia Federal: uma sobre a negociação de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar um filme sobre o pai e que pode ter ido para o bolso da família; outra sobre suspeitas de lavagem envolvendo seu amigo Willer Tomaz. Ambas podem render condenação por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi intimado, ontem, a entregar o passaporte.
Difícil liderar a oposição com a agenda dividida entre o plenário e o depoimento. E, com a derrota do primogênito, as chances de Jair voltar à política eleitoral viraram pó. Flávio era o plano B de um homem preso e inelegível. Não há plano C.
Nomes que disputavam o espólio após a prisão do patriarca, mas foram escanteados quando ele ungiu o filho, voltam à vitrine.
O mais óbvio é Tarcísio de Freitas, que passeou no primeiro turno em São Paulo. Não à toa, não quis entrar no picadeiro do "não reconheço o resultado", ainda que, fiel ao clã, tenha preferido o silêncio público a um abraço na democracia.
Michelle Bolsonaro, com seu mandato de senadora, conquista independência em relação ao marido e aos enteados. Era nítida a alegria da ex-primeira-dama no domingo à noite. E não era só pela vitória da amiga Celina Leão no Distrito Federal.
Até Nikolas Ferreira, que é opção para 2034, quando alcançar a idade mínima, que estava com Flávio quando este biscoitou com o golpe, foi às redes depois dizer que via como improvável a anulação da eleição e pedindo para os seus não irem às ruas. É a direita se reacomodando na cadeira.
Carlos Bolsonaro foi eleito senador, mas não tem a mesma capacidade de articulação que Flávio ou Eduardo, que, após o resultado, não volta para o Brasil tão cedo. E Jair Renan não conta.
Ninguém se engane: o bolsonarismo continua uma força incontestável, com cerca de 25% do eleitorado de partida (grosso modo, o resto dos votos de Flávio veio de insatisfeitos com o governo, não de quem sonha com cloroquina). Mas, para a direita ter futuro no campo democrático e devolver o debate à racionalidade, vai precisar largar a mão do bolsonarismo e isolá-lo nos próximos quatro anos.
Não será fácil. O ex-presidente elegeu um rebanho fiel: o PL terá 121 deputados, a maior bancada de um partido desde 1988, e 28 dos 81 senadores. Em 2030, podemos ver Flávio tentando de novo ou Jair segurando no cabresto a candidatura de outro. Quem sabe a de Tarcísio, que já teve a chance de dar seu grito de independência, mas preferiu ficar à sombra.
Conter a extrema direita não é tarefa só da esquerda. É, principalmente, da direita. Olhem o Congresso.
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