Terapia celular em doenças reumatológicas: por que nem todo paciente pode tratar
A cena se repete no consultório. A paciente senta, abre o celular e vira a tela para mim. É uma reportagem sobre uma terapia que teria curado o lúpus na Alemanha. A pergunta vem sempre igual: “doutor, isso serve para mim?” A resposta honesta quase nunca é sim. E o motivo de não ser sim diz mais sobre o futuro do seu tratamento do que a manchete.
Todo tratamento que usamos hoje em lúpus, esclerose sistêmica ou miopatia inflamatória tem a mesma lógica: segurar a doença enquanto o remédio está sendo tomado. Se o paciente para, a doença tende a voltar.
Boa parte do problema vem dos linfócitos B, células de defesa que passaram a produzir anticorpos contra o próprio corpo. Já existem medicamentos que atacam essas células, como o rituximabe. Eles retiram os linfócitos B principalmente da circulação sanguínea. Nos tecidos, onde parte dessas células se esconde, a limpeza é incompleta. Sobra reservatório. O reservatório repovoa. A doença retorna.
A terapia CAR-T parte de outro caminho. Coletamos os linfócitos T do próprio paciente e, em laboratório, instalamos neles um receptor programado para reconhecer o linfócito B onde quer que ele esteja. Devolvemos essas células em uma única infusão. Elas se multiplicam dentro do corpo, entram nos tecidos, fazem a limpeza e depois desaparecem. O organismo, então, volta a produzir linfócitos B novos, a partir da medula óssea, sem a memória autoimune que existia antes.
O objetivo deixa de ser controlar a doença com medicação contínua e passa a ser reprogramar o sistema imune. Nos primeiros pacientes tratados, o desfecho relatado foi remissão sem uso de qualquer medicação para a doença de base.
A jovem Vu-Thi Thu-Thao foi diagnosticada com lúpus aos 16 anos, na Alemanha, depois de meses de dor muscular e articular que não foram levadas a sério. Seguiu o percurso que reconheço em muitos pacientes: tratamentos cada vez mais agressivos, remissões temporárias, recaída. Chegou aos 20 anos com o corpo em falência e sem terapia aprovada restante. Em 2020, recebeu uma única infusão de células CAR-T na Universidade de Erlangen. Teve febre e fadiga nos dias seguintes, que passaram. Cinco anos depois, segue em remissão, sem medicação, e trabalha na mesma clínica onde foi tratada.
Depois dela vieram séries maiores, com pacientes de lúpus, esclerose sistêmica e miopatia inflamatória, todos com falha prévia a múltiplos imunossupressores. Os resultados se mantiveram consistentes. Ainda assim, falamos de dezenas de pacientes no mundo, com seguimento medido em poucos anos. Cinco anos de remissão em uma pessoa é a melhor evidência que temos. Não é a mesma coisa que cura estabelecida para uma população.
Essa parte quase sempre fica de fora das reportagens, e é a que mais importa para quem está considerando o tratamento.
Antes de receber as células, o paciente passa por quimioterapia em dose baixa, chamada linfodepleção, para abrir espaço no sistema imune. Depois da infusão, fica internado. A complicação mais comum é a síndrome de liberação de citocinas, uma reação inflamatória com febre alta e queda de pressão. Nas séries em doenças autoimunes, ela costuma ser mais leve do que em câncer. Existir, existe.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em jovempan.com.br — o conteúdo pertence a Jovem Pan.