Crise argentina põe em xeque 'milagre econômico' de Milei
O argentino Fernando Pérez, 47, chegou a ter três trabalhos para cobrir as despesas da casa. Um deles era em uma fábrica de calçados que fechou há quatro meses. Hoje, com "apenas" um emprego, tenta sobreviver e pagar dívidas acumuladas.
"Devo cerca de 2 milhões de pesos (R$7.300). Já cancelei o plano de saúde e cortei tudo o que podia. O cenário é assustador. Eu e minha esposa muitas vezes temos de optar entre remédios e comida", comentou Pérez, um dos argentinos que foi às ruas de Buenos Aires protestar contra o endividamento da população.
Pérez faz parte da massa de inadimplentes argentinos, que chegou a quase 6 milhões de pessoas, segundo dados do Banco Central da República Argentina, um número que representa 13,6% da população. É um recorde histórico, que levou, pela primeira vez, os sindicatos argentinos a organizarem uma marcha em defesa dos endividados.
A escalada da inadimplência, aliada a outros problemas econômicos recentes, como o fechamento de fábricas no país, instalou na sociedade um debate sobre até que ponto o programa econômico do libertário Javier Milei, elogiado pelo ajuste fiscal e controle à inflação, conseguiu melhorar a situação da Argentina.
O assunto ganhou a imprensa internacional. O Financial Times publicou reportagem sobre o avanço do endividamento dos argentinos após as reformas de Milei. O New York Times questionou se as reservas de petróleo de Vaca Muerta serão suficientes para sustentar a recuperação econômica do país. Na imprensa argentina, notícias sobre fechamento de empresas e crise econômica ganham os holofotes.
Os tons das reportagens atuais sobre o país contrastam com o que se noticiou em 2025, quando a inflação caía e o PIB avançava. À época, a leitura da imprensa internacional - e doméstica - era de que o pacote econômico de Milei teria um custo social, mas seria algo necessário e temporário para colocar o país em uma trajetória de crescimento.
Milei foi eleito com um programa econômico que mirava déficit zero nas contas públicas, corte de gastos, redução de subsídios, desaceleração da emissão monetária e abertura da economia. O objetivo era eliminar desequilíbrios históricos das contas públicas e controlar a inflação que, quando assumiu o governo, superava 25% ao mês.
Dentre as vitórias indiscutíveis, está a desaceleração da inflação. O índice de preços argentino caiu para uma taxa mensal entre 1,9% e 3,4% nos primeiros oito meses de 2026.
O retrato das contas públicas também melhorou de largada. No primeiro ano de gestão, a Argentina registrou resultado fiscal primário (diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida pública) positivo pela primeira vez desde 2008 - o superávit foi equivalente a 1,8% do PIB. No ano anterior, o último da gestão do peronista Alberto Fernández, o déficit havia sido de 2,9% do PIB. O ajuste incluiu cortes em múltiplas frentes: subsídios a serviços públicos, obras públicas, gastos sociais e transferências para governos provinciais. Só no primeiro ano de governo, a redução nos gastos com obras públicas chegou a 87%.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.